Sete bartenders portugueses reinterpretam Jack Daniel’s num exercício de técnica, memória e terroir líquido. O programa Friends of Jack transforma um ícone americano em matéria-prima de autor.
Em 1866, Jasper Newton Daniel registou a sua destilaria no Tennessee com uma obsessão simples: qualidade sem atalhos. O resto é mitologia líquida, mas convém perceber o que sustenta essa narrativa antes de a repetirmos como mantra.
Quando mergulhamos no universo de Jack Daniel’s surgem expressões como carvão de ácer sacarino, Lincoln County Process ou barris novos queimados. São termos que fazem parte da identidade da marca e que explicam, de forma muito concreta, o perfil sensorial que encontramos no copo. Não são adereços técnicos; são a fundação.
Jack Daniel’s é classificado como Tennessee Whiskey. A distinção não é só geográfica. Antes de o destilado entrar nos barris para envelhecer, passa por uma filtragem lenta através de carvão vegetal produzido a partir de madeira de ácer sacarino. Este passo adicional — conhecido como Lincoln County Process — suaviza a estrutura alcoólica e remove compostos mais agressivos, resultando numa textura mais redonda e polida desde a origem.
O carvão é produzido pela própria destilaria, queimando madeira de ácer até à carbonização controlada. O destilado atravessa essa camada porosa com paciência quase obstinada. O que sai do outro lado mantém caráter, mas ganha precisão. A tal suavidade nasce aqui, numa etapa que é química antes de ser poesia.
Depois entram os barris. Sempre novos. Sempre de carvalho americano. E sempre queimados por dentro. O fogo cria uma camada caramelizada na madeira, que ao longo dos anos vai libertando compostos aromáticos como a vanilina e açúcares tostados. Daí surgem as notas de baunilha, caramelo e especiarias doces que estruturam o perfil clássico da casa.
A base cerealífera também conta. O mash bill privilegia o milho, naturalmente mais doce do que o centeio. Essa doçura estrutural traduz-se num perfil acessível, equilibrado, com espinha dorsal. Nada é acidental.
A gramática antes da literatura
Quando se fala em “gramática” do whiskey, fala-se de regras que garantem identidade. Receita de grãos, filtragem, barris, tempo de maturação. Este conjunto cria previsibilidade sensorial. E previsibilidade, em coquetelaria de autor, é liberdade controlada.
É precisamente nesta base que nasce o Jack & Friends, um programa de parceria criativa que aproxima a marca de alguns dos bartenders mais relevantes do país. Não se trata de colocar logótipos em cartas. Trata-se de diálogo técnico e liberdade interpretativa sustentada por método. O programa reúne profissionais com percursos distintos, mas unidos por uma abordagem autoral à mistura.
No Porto, António Rosário, fundador do Frágil Cocktail Bar, traz uma visão profundamente sensorial da bebida. O seu “On Mushrooms” cruza Gentleman Jack com vermute artesanal de shiitake, trufa e shimeji braseado. Um cocktail umami, terroso e aveludado, que testa os limites da madeira e da suavidade do destilado.
Também no Porto, no Marlindo 19.59, Eduardo Milheiro apresenta “Apple of Jack’s Eye”, inspirado na tarte de maçã e na ideia de conforto partilhado. A doçura do milho dialoga com fruta quente e especiarias, evocando memória doméstica sem cair na previsibilidade.
Em Lisboa, no Bacchanal, Joana Santos arrisca “Nata On The Rocks”, incorporando pastel de nata, rooibos de fava tonka e chá oolong. A baunilha natural do barril encontra eco na pastelaria portuguesa, criando uma ponte improvável entre Lisboa e Tennessee.
No Red Frog, referência incontornável da coquetelaria nacional, Paulo Gomes apresenta “Mushroom + Godfather”, combinando Jack Daniel’s Triple Mash com PX Sherry, Disaronno e água extraída por osmose de cogumelos cultivados em borras de café recicladas. Complexidade oxidativa, textura ligeiramente terrosa, estrutura curiosa.
No Algarve, no Spikes, Kevin Belhaj propõe “Birdie Juice”, inspirado em apple crumble, onde a acidez da maçã verde equilibra notas amanteigadas e especiadas.
No The Argo, Nélson de Matos apresenta “Popcorn & Apples”, jogando com crocância e doçura assada, numa leitura nostálgica mas tecnicamente afinada.
De volta ao Porto, no Curioso, Tiago Monteiro encerra com “Talkin’ Tennessee”, onde Old No. 7 se cruza com lavanda, soda de café e cereja, explorando a dimensão amadeirada e floral do destilado.
Do processo à autoria
O mito ajuda a vender. O processo sustenta. Jack Daniel não foi apenas um homem com talento para criar narrativa. Foi um obcecado por método. E talvez seja essa obsessão que permite que, mais de um século depois, um destilado nascido no Tennessee continue a dialogar com a coquetelaria portuguesa de forma adulta e confiante.
O programa Jack & Friends celebra isso mesmo: um clássico que aceita interpretação sem perder identidade. Quando a base é sólida, a criatividade deixa de ser risco e passa a ser consequência. As criações desenvolvidas no âmbito do Jack & Friends estão disponíveis nos respetivos bares participantes, integradas na experiência regular de cada espaço. Que comece a romaria para os provarmos a todos.
Marca: Jack Daniel’s
Categoria: Tennessee Whiskey
Bares participantes:
– Frágil Cocktail Bar (Porto)
– Marlindo 19.59 (Porto)
– Bacchanal (Lisboa)
– Red Frog Speakeasy (Lisboa)
– Spikes (Algarve)
– The Argo (Algarve)
– Curioso (Porto)





















