O debate em torno do novo imposto sobre patrimónios acima de 100 milhões expõe a França a um dilema: proteger o luxo como motor económico ou responder ao clamor popular por justiça fiscal.
Na pátria do luxo, onde desfilam ateliers centenários e fortunas multigeracionais, a palavra “riqueza” raramente é neutra. Em França, um país que ergueu a guilhotina como símbolo de igualdade, os grandes patrimónios estão sempre sob escrutínio. A mais recente proposta fiscal — a chamada taxa Zucman, que pretende impor um imposto mínimo de 2% anual a fortunas superiores a 100 milhões de euros — reacendeu um debate tão antigo quanto a própria República: até onde deve ir a redistribuição, quando o prestígio do país depende em parte dos seus super-ricos?
Arnault na linha da frente
Bernard Arnault, fundador e presidente do conglomerado LVMH, não deixou margem para dúvidas. Segundo o Financial Times, Arnault considerou o imposto “letal” para a economia francesa e um “claro desejo de destruição”. A força das palavras não surpreende. Arnault não é apenas um empresário, mas o rosto de um império avaliado em mais de 250 mil milhões de euros, que emprega dezenas de milhares de pessoas e simboliza a excelência do savoir-faire francês. Para muitos, é o orgulho nacional; para outros, o retrato acabado da desigualdade.
Arnault acusa Gabriel Zucman, economista que desenhou a proposta, de ativismo ideológico e de ter uma tese “dirigida pessoalmente contra si”. Zucman respondeu com serenidade académica, lembrando que a liberdade intelectual está em risco em vários países e que “é tempo de tributar os multimilionários com uma taxa mínima”. O confronto entre os dois não é apenas técnico: tornou-se cultural e quase existencial.
As start up no fogo cruzado
Mas não é só Arnault quem sente o impacto da proposta. Fundadores de start up tecnológicas, cujo valor de mercado os coloca dentro do patamar visado, têm levantado a voz. Em declarações ao Financial Times, Éric Larchevêque classificou a medida como “coletivismo” e “comunismo”. Philippe Corrot, da Mirakl, foi ainda mais direto: “É absurdo e perigoso obrigar as pessoas a vender parte das suas empresas para pagar impostos”.
O dilema é evidente: patrimónios de papel, que existem em avaliações feitas por investidores de risco, mas que não se traduzem em liquidez real. Para uns, trata-se de corrigir uma injustiça estrutural; para outros, de colocar em risco a criação de riqueza futura.
Macron entre a espada e a parede
Desde a sua primeira eleição, Emmanuel Macron tentou construir a imagem de uma “nação de start up”, cortando impostos sobre sociedades e reduzindo a carga sobre ganhos de capital. Mas essas medidas custaram-lhe caro no plano político: foi rotulado como “o presidente dos ricos”. Agora, pressionado por um Parlamento fragmentado e por protestos de rua, enfrenta a difícil missão de conciliar justiça fiscal com atratividade empresarial.
O novo primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, já admitiu estar disponível para discutir a partilha do esforço fiscal, mas deixou o aviso de que os “ativos profissionais” devem ser tratados com cuidado. O equilíbrio, contudo, parece cada vez mais difícil.
A força da opinião pública
Nas ruas, mais de meio milhão de franceses manifestaram-se contra cortes orçamentais, empunhando cartazes a exigir impostos sobre os mais ricos. E uma sondagem recente revelou que 86% da população apoia a taxa Zucman. A dicotomia é clara: enquanto boardrooms e investidores internacionais veem o imposto como uma ameaça à competitividade, a opinião pública interpreta-o como justiça elementar.
A tensão cresce. De um lado, as famílias Arnault, Bettencourt ou Dumas, cujo sucesso internacional alimenta a balança comercial francesa. Do outro, cidadãos que enfrentam cortes e veem fortunas incalculáveis escapar à sua realidade.
O que está em causa vai muito além da taxa de 2%. É a identidade de um país que simultaneamente exporta luxo como cartão-de-visita e se define historicamente pelo ideal de igualdade. Entre o prestígio das maisons que encantam o mundo e o populismo fiscal que galvaniza as ruas, a França confronta-se com uma escolha difícil.
O dilema resume-se a uma pergunta: pode uma nação ser, ao mesmo tempo, o berço do luxo e o laboratório de um novo igualitarismo fiscal? Ou acabará por descobrir que, ao tributar demasiado o seu orgulho económico, arrisca transformá-lo em fuga?











