No novo ME Lisbon by Meliá, o Fismuler estreia-se em Portugal com a sua cozinha despretensiosa, feita de produtos frescos, pratos para partilhar e um ambiente onde a simplicidade é lei.
Não é todos os dias que um restaurante chega a Lisboa com fama feita de antemão. O Fismuler atravessou a fronteira com um capital de histórias: o escalope panado que já conquistara Madrid, a tarte de queijo que se tornou sobremesa de culto e um modo de estar à mesa onde o produto e a partilha são soberanos. Instalado no piso térreo do novo ME Lisbon by Meliá, na movimentada esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo, o espaço abre-se como uma celebração descontraída da cozinha ibérica — mas sem artifícios.
A filosofia é clara: no coração do Fismuler está o produto. Fresco, sazonal, escolhido em proximidade com produtores. Daí resulta uma cozinha honesta, feita de pratos que chegam à mesa com intensidade de sabor e uma beleza sem pretensão.
Nino Redruello, chef e quarta geração da família La Ancha, trouxe para Lisboa a mesma visão que revolucionou Madrid em 2016: substituir a cozinha das desconstruções e da espuma pelo regresso à pureza da natureza. Inspirado pelo movimento nórdico, apostou em vegetais, em peixes frescos e nas fermentações, construindo uma identidade própria que hoje se reconhece como marca.
A experiência consolidou-se em Barcelona, em 2018, e agora chega a Lisboa com a certeza de que há público preparado para receber uma cozinha que é, acima de tudo, transparente. “Respeito, humildade e simplicidade”, resume Nino. “Fazer as coisas com as próprias mãos.”
O ambiente: industrial e acolhedor
No Fismuler, a cozinha e a sala fundem-se. Não há barreiras entre quem cozinha e quem se senta. As mesas de madeira reaproveitada, os tampos de mármore e as bancadas de aço convivem com candeeiros de verga e uma iluminação suave, que à noite ganha intensidade com a música ao vivo.
É um espaço industrial, mas caloroso; democrático, mas cheio de energia. Ali, tanto se vê uma mesa de amigos a partilhar pratos como um casal a jantar tranquilamente. A arquitetura foi pensada para favorecer a proximidade, para que cada refeição soe a celebração.
Pratos que contam histórias à mesa
Começar pela ostra com ponzu e trufa é entrar logo num registo de frescura sofisticada. A acidez cítrica equilibra a intensidade marinha, e a trufa acrescenta profundidade. Mais terra-a-terra, mas igualmente viciante, o bocata de orelha crocante com salsa brava é daqueles petiscos que criam adição: crocante, picante, saboroso. Ficámos fãs e já só queremos regressar para repetir.
O pão chinês recheado com bacalhau é outro exemplo da ousadia do Fismuler: uma massa fofa que guarda no interior o sabor do mar português, com uma ponta de irreverência.
Não seria Fismuler sem o Escalope San Román — o grande ícone da casa. Em Lisboa, mantém a liturgia de ser finalizado à frente do cliente, com ovo e trufa, num momento que conjuga espetáculo e sabor. Mas há ainda um pormenor que o torna memorável: o tamanho. Tão generoso que facilmente serve duas pessoas — no nosso caso, deu não só para partilhar, como ainda levou companhia para o jantar em casa. Uma abundância rara, que traduz bem o espírito democrático do restaurante: pratos pensados para a mesa coletiva, sem cerimónias.
Também merece destaque a tortilla de bacalhau, batata e pimentos — esponjosa, reconfortante, com assinatura ibérica e sabor português. O pregado grelhado com legumes e algas é um prato de pureza, onde o peixe se mostra em todo o esplendor. Já a carrillera de vitela cozinhada lentamente, servida com pesto de ervas, surpreende pelo contraste: esperávamos um prato pesado, mas recebemos delicadeza e suavidade.
A tarte de queijo Fismuler é lendária — e em Lisboa exigiu semanas de adaptação para encontrar o ponto certo nos laticínios portugueses. Cremosa, firme mas delicada, feita com três queijos, confirma porque é uma sobremesa de culto. Na prova, a densidade surpreende: doce q.b., com notas ligeiramente fumadas que prolongam o sabor. É daquelas sobremesas que se tornam inesquecíveis não apenas pelo gosto, mas pela forma como fecham a refeição. A cada garfada, ficamos com a sensação de estar perante a assinatura mais íntima da casa. E sim, vale a pena guardar espaço para ela — a tarte não perdoa quem chega sem apetite.
A chegada do Fismuler a Lisboa não se resume ao jantar. De manhã, o espaço abre-se para um pequeno-almoço pensado para hóspedes do hotel e passantes: pães de massa-mãe, croissants, presunto ibérico, queijos dos Açores, fruta da época. À la carte, surgem opções como sandes de salmão fumado, ovos marroquinos ou rabanada com natas batidas. Uma mesa de manhã que reflete a mesma filosofia do jantar: simplicidade, sabor, generosidade.
E no bar Elia — batizado com o nome da avó de Nino Redruello — a proposta mantém o tom descontraído: hambúrgueres, croquetes, massas, tiraditos de peixe. Uma cozinha sem regras rígidas, pensada para acompanhar cocktails ou um copo de vinho.
O Fismuler é apenas uma das faces da família La Ancha, que desde 1919 gere restaurantes em Madrid e, hoje, soma 13 espaços entre Espanha e Portugal. À frente estão os irmãos Nino e Santi Redruello e o primo Ekaitz Almandoz, apoiados por uma equipa que cresceu com eles e onde o valor humano é tão importante como o produto.
Em Lisboa, a liderança cabe a Nuno Dinis, que passou pelo BAHR no Bairro Alto Hotel, em sintonia com Manuel Villalba, chef executivo da família. O resultado é uma casa que respira continuidade e pertença, sem perder a frescura de uma estreia. O Fismuler não depende de artifícios visuais, mas de coerência gustativa: cada prato conta uma história de origem e diálogo com o produto. Os momentos de ritual — como a finalização do escalope ou a apresentação da tarte de queijo — elevam a experiência sem a tornar pretensiosa.
ME Lisbon by Meliá
Morada: Avenida Fontes Pereira de Melo, nº7 F
Reservas: +351 218 386 096
Almoço: seg. a qui. 12h30-15h00; sex. a dom. 13h00-15h00
Jantar: dom. a qui. 19h00-22h30; sex. e sáb. 19h00-23h00













