José Pedro Castro, especialista em biologia do envelhecimento, defende que a longevidade deixou de pertencer ao domínio do mito. Entre sono, ciência celular, genética e novas terapias, o envelhecimento começa a ser visto como um processo mensurável, maleável e, talvez, parcialmente reversível.
Não é de agora que a humanidade sonha com a longevidade. Desde o grande épico de Gilgamesh, cujo autor se desconhece, até à procura da fonte da juventude por Ponce de León, ilustrada numa pintura secular por Lucas Cranach, a humanidade tem pensado e sonhado com a imortalidade.
Claro está que bastaria colocar alguém proveniente do século XIX para ficar boquiaberto com a esperança média de vida dos nossos dias. Estamos a viver mais, sem dúvida – mas estaremos a viver melhor? Não necessariamente: os ganhos em longevidade não têm sido acompanhados por um prolongamento equivalente de vida em boa saúde (entendida aqui, de forma simplificada, como anos livres de doença).
Em termos simples, fomos capazes de acrescentar anos à vida mais depressa do que acrescentámos vida aos anos. E em que é que isto se traduz? Certamente que o leitor já adivinhou: no aumento de doenças crónicas primárias e de comorbilidades.
E outra coisa não seria de esperar: há um custo evolutivo associado ao facto de termos praticamente duplicado o tempo de vida desde os últimos 100 anos – uma fração de um instante na escala temporal geológica do nosso planeta. Quer isto dizer, que os nossos organismos não foram moldados pela evolução para uma longevidade tão repentina e tão prolongada.
Assim, nasceu a Gerociência, a ciência que estuda o próprio processo de envelhecimento e que defende que, teoricamente, ao interferirmos, abrandarmos ou até revertermos esse processo, conseguiremos comprimir o período de vida com doença.
Se isto é possível? Absolutamente! Veja-se o caso de pessoas centenárias que mantêm os seus mecanismos genéticos e estratégias moleculares mais resilientes por mais tempo, fazendo não só com que ultrapassem a barreira dos cem anos, mas que o façam, em muitos casos, em excelente condição. Outras pistas de que podemos interferir com a velocidade do envelhecimento chegam-nos da natureza.
Destaco dois exemplos. O primeiro é deixar que o leitor se pergunte: quantos anos caninos equivale um ano humano? A ciência popularizou a ideia de que um ano humano equivale a sete anos caninos, sugerindo que a idade biológica dos cães avança, no geral, muito mais rapidamente (pelo menos sete vezes) do que a dos humanos. Isto é, em forma geral, o conceito de idade biológica.
Mas há exemplos ainda mais impressionantes na discrepância entre a velocidade com que corre a idade biológica entre espécies: a baleia-da-Gronelândia pode viver até 250 anos, e o tubarão-da-Gronelândia estima-se que viva entre 400 e 500 anos, desacelerando o envelhecimento, ativando melhor vias de longevidade, ou ambos. Mas essencialmente, isto demonstra que a natureza já encontrou formas evolutivas de prolongar significativamente o tempo de vida.
A minha investigação, e a de muitos outros, tem revelado algumas das estratégias moleculares extraordinárias usadas para promover esta longevidade excecional, entre as quais destaco melhor reparação do ADN, uma regulação mais eficaz da inflamação e uma melhor condição metabólica, entre muitas outras. Vivem melhor e vivem praticamente até ao fim sem doença – porque não aprender com eles? A biologia comparativa do envelhecimento é, neste momento, um dos temas mais quentes neste campo, porque podemos aprender truques moleculares com os animais de longevidade excecional e usá-los em nosso favor.
Quanto ao segundo exemplo, espero que estejam sentados. A nossa própria biologia – a humana, digo – já sabe como rejuvenescer células. Perdão? O exercício que proponho ao leitor é simples: se todas as células do corpo envelhecem com o tempo, porque razão, quando o gameta do pai e o da mãe se fundem dando origem ao óvulo, cada nova geração de Homo sapiens não nasce mais velha? Seria isso o esperado, certo? Certo… mas também errado.
O que a ciência descobriu nos últimos anos é que existe um processo natural de rejuvenescimento que ocorre por volta da terceira semana de gravidez, durante a gastrulação, e que coloca o “relógio” do envelhecimento a zero. É a partir desse ponto que começamos verdadeiramente a envelhecer, ainda dentro do útero materno. As implicações são enormes. Quanto mais cedo agirmos – através de sono adequado, exercício físico e alimentação equilibrada – maior será a probabilidade de evitar trajetórias de envelhecimento acelerado.
Porém, tem havido um enorme investimento na investigação farmacológica e genética para abrandar ou até reverter o envelhecimento. Um desses casos é a rapamicina, um fármaco inicialmente descoberto em Rapa Nui (daí o nome), na Ilha da Páscoa, e que se revelou útil na prevenção da rejeição de transplantes renais. Posteriormente, foi testado como molécula da longevidade e, aqui, os resultados são dos mais robustos possíveis: extensão da longevidade em vermes, moscas e ratinhos.
Isto acontece porque atua num complexo proteico evolutivamente conservado entre espécies, regulando uma vasta gama de processos, desde a síntese proteica à autofagia, ao crescimento celular e à inflamação. Assim, talvez não seja tão surpreendente. Contudo, aposto as minhas fichas que o leitor não é um verme, uma mosca ou muito menos um ratinho. E nos humanos?
Sendo que estudos de longevidade são um enorme desafio (esperar 70 ou 80 anos por resultados seria pouco prático), utilizam-se endpoints clínicos específicos ou biomarcadores que nos indicam a velocidade do processo de envelhecimento. Assim, vários estudos revelaram que a rapamicina pode melhorar, em adultos e séniores, a função cognitiva, cardiovascular e imunológica. Uma molécula bastante promissora, portanto.
Mas reverter o envelhecimento é outra história – e é aqui que entra a reprogramação celular. Há mais de uma década, Shinya Yamanaka recebeu o Prémio Nobel por descobrir um conjunto de proteínas capazes de transformar uma célula adulta, diferenciada e especializada, numa célula estaminal. É como pegar num médico especialista e revertê-lo a uma criança sem certezas do que quer fazer na vida.
Claro está. Isto foi revolucionário. Mas representa, ao mesmo tempo, uma promessa e um desafio para os investigadores, como eu, da biologia do envelhecimento. Queremos reprogramar as células apenas o suficiente para que rejuvenesçam, mantendo a sua identidade celular. Um bocadinho a mais, e está o caldo entornado. Afinal, o leitor não gostaria que, de repente, os seus neurónios se transformassem em células estaminais – o que certamente dificultaria a compreensão deste artigo.
Assim, a ciência tem demonstrado que é possível, pelo menos para já, rejuvenescer células em cultura e em modelos animais progeróides (síndromes de envelhecimento acelerado), aumentando a sua longevidade. Agora temos mais e melhores ferramentas, para resolver algo tão complexo como o puzzle do envelhecimento e traduzi-lo em terapias reais, em ensaios clínicos.
Termino com a a seguinte observação: a questão não é tanto se conseguiremos eliminar o envelhecimento, mas até que ponto conseguiremos modulá-lo de forma previsível e segura. A evidência acumulada sugere que o envelhecimento é um processo plástico, parcialmente maleável, e, acima de tudo, mensurável – o que o torna, pela primeira vez, um alvo legítimo de intervenção biomédica.
Entre estratégias comportamentais, farmacológicas e genéticas, estamos a começar a delinear um mapa coerente dos mecanismos que determinam não só quanto vivemos, mas como podemos viver. O desafio que se segue é claro: traduzir este conhecimento em intervenções eficazes, acessíveis e eticamente sustentáveis, capazes de comprimir a morbilidade e redefinir o que entendemos por “envelhecimento”. O caminho para a longevidade excecional, democraticamente acessível a todos, já começou a ser trilhado.
José Pedro Castro é investigador doutorado pela Universidade do Porto, com pós-doutoramento feito na Harvard Medical School (Boston, EUA). Atualmente, é Investigador Principal no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, onde lidera projetos na área da biologia do envelhecimento e longevidade. É também membro, co-fundador da Sociedade Portuguesa para a Medicina e Ciência da Longevidade. Será orador na conferência “Melhor Sono para Maior Longevidade™” que terá lugar no próximo dia 14 de maio, entre as 17h30 e as 20h00, no MAAT Central (antigo Museu da Eletricidade), em Lisboa.









