Envelhecer melhor talvez comece menos na superfície e mais na forma como nos movemos. Filipe Serra de Oliveira, ortopedista e cirurgião de anca, explica por que razão a mobilidade é um pilar essencial da longevidade.
Quando falamos em cirurgia da anca, a imagem que muito provavelmente nos vem à cabeça é a de uma prótese total da anca. Será legítimo interrogar-se sobre o porquê de não estarmos a falar, por exemplo, de uma cirurgia plástica de rejuvenescimento… Na verdade, a prótese total da anca foi considerada como a cirurgia do século, numa publicação feita numa das revistas médicas de maior impacto mundial, a “The Lancet”. A razão deste reconhecimento deve-se essencialmente ao impacto na melhoria da qualidade de vida reportado por pacientes desta cirurgia.
Compreendendo que o rejuvenescimento da “superfície” não modifica a nossa longevidade, seria natural imaginar um “mergulho profundo” numa ideia de “cirurgia genética” com capacidade de transformar o processo de envelhecer. Parece uma ideia atrativa, mas não é uma realidade! Neste sentido, cirurgias como a da anca, que sejam transformadoras da qualidade de vida fazem, cada vez mais, parte do “portfólio” de tratamentos de longevidade.
Por outro lado, a promoção de medidas não interventivas para o bem-estar geral, durante o dia, através do exercício e de uma alimentação saudável, complementados com uma boa noite de sono são, segundo estudos recentes de longevidade, dos melhores optimizadores do equilíbrio hormonal, molecular e epigenético.
A cirurgia da anca tem assistido nos últimos 15 anos a verdadeiras revoluções no sentido da longevidade da articulação propriamente dita. A chamada cirurgia conservadora da anca é uma área que procura identificar e modificar, em adultos jovens, parâmetros anatómicos anómalos para prevenir o seu desgaste acelerado.
O Conflito Femoro-Acetabular é uma destas patologias que afeta adultos jovens ativos e desportistas e se manifesta com uma incapacidade progressiva por dor na região inguinal. É um dos principais responsáveis pela artrose precoce da anca em adultos e pode ser tratado com uma técnica minimamente invasiva chamada artroscopia da anca. Através deste procedimento pretendemos aumentar a longevidade da anca nativa e adiar o mais possível a colocação de uma anca artificial.
A anca está integrada numa estrutura mais ampla, a bacia, e ambas constituem uma pedra angular de transição entre o tronco e a parte inferior do corpo. Foram determinantes para o homem ter evoluído dos seus antepassados quadrúpedes para uma das característica mais diferenciadora da espécie humana, o bipedismo (andar em pé). A bacia rodou sobre a cabeça do fémur e permitiu à coluna assumir a posição vertical e adquirir as curvaturas que hoje lhe conhecemos. Contudo essas transformações foram bastante mais profundas e complexas, o estudo da anatomia de ambas é o “documento vivo” desse processo.
A anatomia do envelhecimento ativo
A evolução não tem um plano, acontece de acordo com as necessidades das espécies na luta pela sua sobrevivência. O macaco teve de se colocar em pé talvez para vislumbrar as suas presas na savana ou mesmo para se proteger do ataque dos seus predadores. Teve necessidade de libertar as mãos como apoio de marcha, para poder desenvolver e usar todos os instrumentos que são uma parte daquilo a que chamamos humanidade.
Por outro lado, nada disto teria sido possível sem o nível de desenvolvimento cerebral do ser humano, que é o maior de todas as espécies e foi sem dúvida o grande fator diferenciador do restante reino animal. Para isto acontecer, a bacia teve de alargar para acomodar o volume do crânio não apenas durante a gestação, mas essencialmente para permitir a passagem dos “nossos bebés” no canal de parto. É por isso que a bacia e anca são dos segmentos do nosso esqueleto mais determinantes na história daquilo hoje somos: “uma cabeça grande no cimo de dois pontos únicos de apoio no solo…”.
Rejuvenescer ou talvez não envelhecer tão rápido depende, tal como na cirurgia conservadora da anca, de encontrar estratégias de gestão e direcionamento da nossa energia corporal para um metabolismo mais anabólico (processo de reparação e regeneração dos tecidos) e menos catabólico (processo de lesão e destruição dos tecidos).
Neste sentido, muitos dos esforços dos programas de anti-aging vão no sentido de promover as variáveis externas e internas que fortalecem o primeiro. O cérebro humano consome 25% da energia corporal disponível. O sistema músculo-esquelético em repouso consome os mesmos 25%, mas esse valor pode multiplicar por 6 vezes durante o exercício intenso. Isto porque, andar e fazer exercício em pé é um equilíbrio muito exigente. A sua otimização é extremamente importante para garantir os melhores índices atividade física com o menor gasto de energia e por isso a melhor performance.
A sociedade moderna trouxe vícios posturais relacionados com o sedentarismo e agravados pela “febre dos ecrãs”. Gerou-se uma epidemia de dor e incapacidade músculo-esquelética que são graves bloqueios na nossa aspiração de aumento de longevidade. Surge assim espaço para uma área específica dentro da longevidade a que chamo Longevidade Musculo-Esquelética. Resulta da necessidade de preservar um dos pilares identificados como primordial no “edifício da vida” que é o movimento.
O exercício físico, a par do sono e da alimentação são fatores que foram estudados e que provaram ser determinantes da existência de uma maior percentagem de centenários nas chamadas Blue Zones. Mas, não basta o movimento/exercício, há que garantir que ele é feito nas melhores condições clínicas e de postura.
Envelhecer mais tarde, preservar a autonomia
Há uma elevada percentagem de pessoas cuja dor ou incapacidade resultam não de uma condição cirúrgica, mas apenas de um desequilíbrio postural. A condição off-posture afeta uma elevada percentagem da população tanto em contexto laboral como desportivo com consequências a médio e longo prazo em termos de bem-estar e longevidade. Neste sentido, o programa de otimização de postura chamado ON-POSTURE (hello@onposture.com) pretende, através de tecnologias de medição específicas combinadas com inteligência artificial, ajudar as pessoas a um retorno a uma vida de exercício ativo e duradouro.
A má postura causa mais do que apenas dor lombar: pode impactar na energia, movimento, equilíbrio e até estado de espírito. A boa notícia é que é treinável. O alinhamento postural é muito mais do que apenas estar direito, é manter o corpo a funcionar da melhor maneira de acordo com a forma como foi desenhado.
Quando estamos onposture, os músculos, as articulações e as estruturas neuro-vasculares conseguem fazer o trabalho de forma adequada. Por sua vez, quando estamos offposture, tudo, desde o equilíbrio à respiração, pode estar condicionado. Uma cabeça para a frente pode levar a tensão mandibular. Os ombros curvados podem causar conflito subacromial (conflito e desgaste do ombro). Uma bacia na posição incorreta pode causar dor lombar e conflito femoro-acetabular (conflito e desgaste da anca). Está tudo ligado!
Aquelas recomendações de pais e avós para “manter as costas direitas” podiam soar a cansativas e sem grande interesse, mas hoje sabemos que tinham fundamento. A postura desempenha um papel essencial no funcionamento equilibrado de todo o corpo. Mais do que simplesmente “estar direito”, ter uma boa postura significa respeitar o alinhamento natural de cada segmento corporal. A coluna vertebral, por exemplo, apresenta três curvaturas fisiológicas — cervical, dorsal e lombar — cujo equilíbrio deve ser preservado nas diferentes posições do dia a dia.
Se o stress contribui para o aumento da dor, fatores como o sono, a alimentação e o equilíbrio postural funcionam como um contrapeso eficaz e natural. Estes pilares são fundamentais para a regulação emocional, a resiliência do sistema imunitário, a reparação dos tecidos e a lucidez cognitiva. A transição de uma medicina predominantemente interventiva para uma abordagem mais preventiva é essencial para a sustentabilidade da vida e dos sistemas de saúde. Se queremos mais saúde e envelhecer bem, temos de começar a prevenir!
Filipe Serra de Oliveira é ortopedista e cirurgião de anca no Hospital CUF Tejo, onde coordena a Unidade de Ortopedia da Anca. Com fellowship do Royal College of Surgeons, no Reino Unido, em Cirurgia Conservadora e Artroplastia da Anca, tem dedicado parte do seu trabalho à relação entre mobilidade, prevenção, postura e longevidade músculo-esquelética. É também membro do projeto ONPOSTURE. Será um dos oradores convidados da conferência “Melhor Sono para Maior Longevidade™”, organizada pela The Utmost Sleep, em parceria com a Fora de Série, que terá lugar no dia 14 de maio, entre as 17h30 e as 20h00, no MAAT Central, em Lisboa.







