Da pausa forçada pela pandemia nasceu o Diogo Noronha Studio, projeto partilhado com Carlota Morais Pires que transforma gastronomia em linguagem de bem-estar, curadoria e hospitalidade.
O silêncio da pandemia trouxe a Diogo Noronha algo raro no ritmo frenético da restauração: tempo. Tempo para refletir sobre a vida, sobre o papel de chef e até sobre o que significava, afinal, cozinhar para os outros. Na altura, estava à frente do Pesca, restaurante que lhe valeu distinções Michelin, mas que acabou por fechar portas devido ao confinamento. “Ainda criei alguns projetos de resiliência nesses meses, com pop ups e delivery, mas esta paragem permitiu-me repensar a relação com a profissão. Deixei o estrelato da cozinha para passar mais aos bastidores, à consultoria, à mentoria. Nessa altura também fui pai, e houve uma transformação a vários níveis”, recorda.
A pausa forçada acabaria por marcar um ponto de viragem numa carreira já recheada de marcos. Formado em Nova Iorque, no Natural Gourmet Institute for Health Culinary Arts, passou por cozinhas de referência como o Moo, com os irmãos Roca, e o Alkimia, em Barcelona. Em Lisboa, deu corpo a projetos que marcaram a cena gastronómica, como o Pedro e o Lobo, a Casa de Pasto, a Vinharia e o Rio Maravilha. Em 2015 foi nomeado Chef do Ano pela Time Out e, nesse mesmo ano, destacado pelo jornal espanhol El Mundo como um dos seis chefs portugueses a revolucionar a gastronomia nacional.
Foi nesse contexto de balanço pandémico que nasceu o Diogo Noronha Studio, fundado em parceria com Carlota Morais Pires, companheira de vida e agora também de negócio. “É a parceria perfeita. Há um total alinhamento de ideias e visão. Apostámos na curadoria e hoje temos uma comunidade, feita de marcas mas também de clientes privados, muitos estrangeiros”, explica. Mais do que uma empresa de catering e eventos, é um espaço onde a gastronomia se cruza com o set design, a direção criativa, a comunicação e, sobretudo, com um pilar central: o wellbeing.
Essa visão já se traduziu em experiências para marcas como Loewe, Longchamp, Louis Vuitton ou Stivali. O que move a dupla é a vontade de explorar novas formas de hospitalidade. “Não somos rígidos. Os nossos eventos são abertos a qualquer tipo de ideia ou momento. Hoje em dia há uma panóplia de ocasiões a explorar: pre-lunch, brunch, pre-dinner. Temos um lado experimental muito ativo”, sublinha Diogo.
O bem-estar como linguagem
O wellbeing não é tratado como uma tendência passageira, mas como um dos pilares identitários do Studio. “É um fenómeno que tem tudo a ver connosco, em que promovemos muito a saúde e a sustentabilidade”, afirma Diogo. A escolha criteriosa de ingredientes de origem responsável, a atenção às restrições alimentares e a criação de dietas funcionais são a base de um trabalho que cruza saúde, estética e prazer. A inovação chega também com serviços pouco habituais em Portugal, como a curadoria de dispensas: organizar cozinhas privadas de acordo com alergias, preferências e estilo de vida, de modo a que receber com qualidade se torne um gesto natural.
A ambição do Studio é levar este conceito mais além, aplicando-o ao dia a dia das empresas. “Gostávamos de entrar mais a fundo na área corporate, levar a nossa visão às empresas. Organizar a alimentação das pessoas que são a força de trabalho é apostar na saúde, sobretudo na saúde mental”, sublinha. O chef acredita que a forma como se come no local de trabalho pode ser determinante para a produtividade, para a cultura empresarial e até para a retenção de talento. “É um investimento em saúde. No final, as empresas vão poupar em subsídios de doença, em absentismo. Estarão a investir na felicidade dos seus recursos humanos.”
Nesta visão, o wellbeing deixa de ser apenas um detalhe do estilo de vida individual e transforma-se numa estratégia de futuro para organizações: menos custos indiretos, mais bem-estar, mais eficiência. Uma proposta que junta o lado cultural, assente em novos hábitos e valores, ao lado funcional, que mede impacto e retorno.
No Diogo Noronha Studio, a hospitalidade é pensada como um todo. Eventos são criados de raiz, com cenografia, moodboards e direção criativa, para que cada detalhe seja expressão de uma narrativa. “Queremos criar experiências mais imersivas, com um lifestyle próximo das opções dos nossos clientes”, resume Diogo. O objetivo não é apenas servir uma refeição, mas encenar um momento, capaz de traduzir a identidade de uma marca ou o estilo de vida de quem contrata o serviço.
A experiência acumulada em mais de 20 anos de carreira levou Diogo a olhar também para os bastidores. “As pessoas são o fator mais importante dos projetos. Os recursos humanos são o maior desafio, reter talento é difícil. Para manter um padrão elevado, é preciso consistência. E isso só se consegue com formação”, defende. No Studio, a consultoria vai da gestão de espaços à análise financeira, ajudando clientes a perceber “verdades difíceis de engolir”: onde investir, o que mudar, e como fazer menos mas melhor. Uma abordagem exigente, mas crucial para a sustentabilidade do setor.
O objetivo final é claro: trabalhar (e encontrar investidores) para conseguir criar um espaço integrado onde tudo possa acontecer in house — cozinha, eventos, consultoria, formação, comunicação, projetos pop up. Um ecossistema de hospitalidade criativa que continua a evoluir, sem fórmulas rígidas, sempre aberto a novas ideias. Como resume Diogo: “A nossa proposta é comunicar através da experiência gastronómica. A comida é só o começo.”

















