Entre o passado do couture e o presente do ready-to-wear, Diogo Miranda encontra a sua voz: rigor e leveza em peças que traduzem o luxo silencioso de quem veste com intenção.
Para Diogo Miranda, vestir é um ato silencioso de afirmação. A nova coleção da A Line, que assina enquanto diretor criativo, é o reflexo dessa filosofia: peças pensadas para mulheres que valorizam o gesto discreto, a estrutura precisa e a beleza que resiste ao tempo. “Quis criar uma coleção que evocasse o glamour de outras épocas, mas com um olhar atual, pensada para mulheres que sabem quem são e não precisam de ostentar para afirmar a sua presença”, resume.
Inspirada no cinema europeu dos anos 60 e 80 — de Persona, de Bergman, à sensualidade tensa de Querelle, de Fassbinder — a coleção Outono-Inverno 2025-26 equilibra o rigor da alfaiataria com a leveza das malhas e sedas. As cores, herdadas dos frescos de Roberto Ruspoli, percorrem um território de neutros quentes, azuis noturnos e tons terrosos, numa paleta que privilegia a serenidade e o conforto visual.
As referências à alfaiataria clássica e ao savoir-faire couture estão presentes em casacos oversized, camisas reinventadas e malhas de caxemira que moldam o corpo com leveza. “A tradição da alfaiataria e da couture é um pilar do meu trabalho. O segredo está em reinterpretar peças ancestrais e adaptá-las ao mundo contemporâneo”, explica Miranda, que se inspira na mulher citadina e viajada — independente, prática e naturalmente elegante.
Entre o atelier e o mundo, Diogo Miranda continua a afirmar a moda como disciplina de rigor e sensibilidade. “Venho de um universo ligado ao couture, e o desafio foi encontrar o equilíbrio entre essa exclusividade e a necessidade de criar coleções adaptadas ao ready-to-wear”, admite. É dessa tensão — entre herança e futuro, tradição e inovação — que nasce o novo ADN da A Line: um luxo silencioso, feito de forma e substância.
Qual foi o ponto de partida desta coleção?
O ponto de partida para esta coleção da A Line foi o resultado de várias influências e inspirações. Inspirei-me na estética minimalista do filme Persona (1966), de Ingmar Bergman, e explorei também os motivos náuticos presentes em Querelle (1982), de Rainer Werner Fassbinder. As cores dos frescos do artista italiano Roberto Ruspoli tiveram igualmente um papel importante na definição da paleta cromática. Assim, consegui criar uma coleção coesa, que reflete estas referências criativas e responde às necessidades comerciais do mercado.
Que temas procurou explorar nas peças e na campanha?
Procurei explorar contrastes e dualidades — o minimalismo e o oversized, o estilo boyish em diálogo com o feminino, o citadino e o descontraído. Estes elementos refletem a essência da mulher A Line: singular, mas plural; alguém que incorpora diferentes facetas de forma autêntica e natural.
Referiu que esta coleção é uma ode à mulher citadina, viajada e independente. Como se traduz esse conceito nas silhuetas e nos detalhes?
Esse conceito materializa-se nos cortes, nas texturas e no conforto das peças. Há um equilíbrio entre silhuetas de inspiração masculina, que conferem proteção e confiança, e elementos mais delicados e femininos. As linhas limpas evocam a força e independência da mulher citadina, enquanto os tecidos suaves e os detalhes subtis acrescentam uma elegância natural.
Como concilia a tradição da alfaiataria e da couture com a necessidade de inovação constante?
A alfaiataria e a couture são pilares do meu trabalho. Acredito que peças como o casaco oversized, o blazer ou as calças de corte clássico são eternas. O segredo está em reinterpretar o património têxtil português e adaptá-lo ao presente — introduzindo novos cortes, proporções e detalhes que lhes dêm uma nova vida e relevância.
Qual foi a visão para a campanha fotográfica?
A campanha foi pensada como uma narrativa visual dividida em duas partes, quase como se retratássemos duas mulheres — ou a transição entre o Outono e o Inverno. As imagens a preto e branco representam uma atmosfera leve e citadina; as imagens a cores são mais densas, com sobreposições e uma feminilidade mais marcada. Esse contraste permitiu-nos explorar diferentes facetas da mulher A Line com autenticidade.
Há alguma peça que considere representativa da sua evolução criativa?
A camisa. Desde que estou na A Line percebi o quão versátil pode ser uma camisa, sobretudo a branca. Descobri mil formas de a reinventar e adaptar — talvez seja o melhor reflexo da minha evolução criativa.
Hoje, o luxo está muito mais ligado à experiência e ao bem-estar do que a objetos ou ostentação. É autenticidade, exclusividade e liberdade de escolha. Para mim, o verdadeiro luxo é o tempo — tempo para estar com quem gosto, viajar, ou simplesmente não fazer nada. As marcas que conseguem traduzir essa ideia, não apenas nos produtos, mas nas experiências e valores que oferecem, são as que realmente se tornam relevantes.
Que papel tem a sustentabilidade nas suas coleções?
Na A Line, a sustentabilidade é central. A marca nasceu com o propósito de dar nova vida a materiais que seriam descartados — os chamados leftovers. Esta abordagem reduz o desperdício e desafia-nos a ser criativos na seleção dos tecidos. Continuamos a incorporar excedentes, equilibrando responsabilidade ambiental com estética e inovação.
O que distingue um projeto autoral de uma marca comercial?
A liberdade criativa. Num projeto autoral há espaço para experimentar e arriscar. Numa marca comercial, cada detalhe conta e tudo é pensado de forma pragmática — desde o corte até ao custo. O desafio está em equilibrar a criatividade com a estratégia, garantindo que o produto final seja interessante, viável e competitivo.
Quais são os maiores desafios de trabalhar a partir de Portugal?
Portugal tem uma indústria têxtil de excelência, com know-how acumulado e proximidade à produção. Isso é uma vantagem, não uma limitação. Claro que há desafios — acompanhar tendências globais e manter a competitividade —, mas a base é sólida. Trabalhar aqui permite-nos criar com rigor e qualidade, colaborando com parceiros em todo o mundo.
Como gere o equilíbrio entre exclusividade e escala comercial?
Venho de um universo muito ligado ao couture, e aprendi a valorizar o detalhe e a personalização. Na A Line, o desafio é conciliar essa exclusividade com um produto acessível e pronto a vestir. Tento garantir que cada coleção tenha elementos diferenciadores — seja no corte, nos materiais ou nos detalhes —, sem perder de vista a funcionalidade.
Que ensinamentos guarda dos primeiros anos de atelier?
Na altura, não percebi a importância que tinham, mas foram esses anos que me distinguiram. Portugal é um país pequeno — é preciso oferecer algo novo, diferente, quase sem concorrência, para que o público te veja com outros olhos.
Que referências continuam a alimentar a sua criatividade?
Cinema, arte e dança. Sou um consumidor de cinema de época, sobretudo dos anos 60 e 80. Essas referências influenciam não só o meu trabalho, mas também a forma como me visto e como observo o mundo.
Como equilibra a visão artística com as exigências do negócio?
É um jogo de cintura. Considero-me um criativo sensato: sei quando ceder e quando insistir. Procuro sempre que o resultado final preserve a essência da ideia inicial, mesmo que isso implique algumas adaptações no processo.
Tem rituais para reencontrar a inspiração?
Na verdade, nunca senti um bloqueio criativo. Estou sempre a pensar em múltiplas ideias ao mesmo tempo — é um fluxo contínuo. Neste momento, já tenho em mente conceitos para as próximas duas coleções.
Que pessoas o inspiraram ao longo do caminho?
As mulheres e homens que me rodeiam, as atrizes que vesti, as celebridades que admiro. E algumas figuras que me marcaram: Caroline de Maigret, Soraia Chaves e Helena Bordon, cada uma à sua maneira.
Se tivesse de escrever uma carta de missão para a sua marca, o que diria?
Se pudesse vestir qualquer figura pública, quem escolheria?
A Cate Blanchett. Admiro o seu percurso e o modo como combina talento com naturalidade. Criaria para ela uma camisa branca com golas e punhos marcantes e umas calças cigarette pretas — uma afirmação perfeita do conceito less is more.
Qual foi o maior erro criativo que já cometeu?
Talvez um acidente de percurso: no início, vesti algumas celebridades sem ponderar o impacto que isso poderia ter. Hoje, analiso com cuidado cada colaboração. Foi uma boa lição sobre estratégia e posicionamento.
Três palavras que definem o seu trabalho?
Focado, perfecionista e exigente.
Como responde à ideia de que o luxo é símbolo de desigualdade?
Depende do ponto de vista. Para alguns, o luxo é material; para outros, é uma experiência emocional. Acredito que o verdadeiro luxo está na forma como vivemos e apreciamos o tempo, não no valor das coisas.
Se não fosse designer de moda, o que seria?
Provavelmente arquiteto de interiores ou decorador. Sempre me senti próximo dessas áreas, e até já me chamaram o “arquiteto da moda”. Faz sentido — sempre vi o vestir como a construção de um espaço em torno do corpo.






















