Ao jantar, mãe e filho descobriram mais do que a cozinha de estrela Michelin de Rodolfo Lavrador: partilharam tempo, conversas e memórias que ficam para sempre.
Na pressa dos dias, até aqueles de quem estamos mais próximos podem ser os que recebem menos da nossa verdadeira atenção. A rotina engole-nos: os horários da escola, os prazos do trabalho, as mensagens por responder, os compromissos que se multiplicam. Estamos presentes, mas raramente inteiros. A conversa fica a meio, o olhar distraído, a escuta fragmentada. É raro parar para estar apenas com um filho, sem o telemóvel a vibrar, sem a urgência do relógio, a dedicar-lhe o tempo inteiro — o tempo sem reservas, o tempo que vale mais do que qualquer outra coisa.
É nesse espaço suspenso, longe da pressa, que nasce o luxo mais verdadeiro: a intimidade de uma conversa sem pressas, o riso cúmplice partilhado entre pratos, a descoberta de que aquele rapazinho cresceu, e cresceu depressa, transformando-se num jovem que já nos devolve o olhar com a mesma curiosidade e intensidade. É nesse instante, feito de presença absoluta, que percebemos que o maior privilégio não é o lugar onde estamos, mas a possibilidade de viver juntos aquele momento.
Foi impossível não recuar dez anos, a um jantar no Largo do Paço, na Casa da Calçada, em Amarante. O meu filho tinha quatro anos e, à sua frente, chegou um prato de bacalhau coberto de uma pasta de azeitonas pretas. A vozinha esganiçada ecoou pela sala, carregada de convicção: “Mãe, isto tem moscas em cima!” Seguiu-se um silêncio incrédulo e depois uma gargalhada generalizada, que fez estremecer o ambiente solene da sala Michelin. Eu, mortificada, desfazia-me em desculpas ao chef, desejando que a terra me engolisse. Ele, vitorioso, exibia um sorriso traquina ao ver o prato afastado e substituído, pouco depois, pela tão desejada bolonhesa — presente inesperado que o fez sentir-se rei por uma noite. Poderia ter sido pizza ou cachorro-quente, que teria recebido com igual felicidade.
As mães de crianças pequenas conhecem bem esta realidade: engolir sapos gigantes, esquecer juras de que fast food não entra no cardápio e contentar-se apenas com o facto de os filhos comerem alguma coisa, o que quer que seja. Nesse dia, o chef de uma cozinha estrelada curvou-se perante o apetite simples de uma criança, e eu aprendi que, por vezes, a vitória não é nossa — é deles.
Entretanto, de volta a Lisboa, aqui e agora, esta mãe já conhecia o CURA, do tempo em que era chefiado por Pedro Pena Bastos. Admirava a sua criatividade, a forma como o restaurante nascera no Ritz e, logo no primeiro ano, conquistara a estrela Michelin. Quando, no início de 2025, Rodolfo Lavrador assumiu a liderança, fiquei curiosa em perceber como iria marcar este novo capítulo.
Esse foi o mote da visita: voltar ao CURA e descobrir a cozinha através do olhar e da mão de um novo chef — desta vez, na companhia do meu adolescente preferido, tantos anos depois do “Episódio Moscas”, com um paladar jovem mas mais maduro, já não havia lugar para confusões — havia, sim, para descobertas.
No CURA, no Ritz Four Seasons Lisboa, vivemos a sua primeira experiência verdadeiramente consciente de um restaurante com estrela Michelin. Não apenas provar pratos diferentes, mas perceber a ideia de percurso, de narrativa, de curadoria.
Partilhar estrelas, à mesa e na vida
Pelo facto de o meu acompanhante ser menor de idade, optámos pela harmonização não alcoólica — e não nos arrependemos. Cada copo foi uma revelação: o spritz de tomilho-limão e alecrim trouxe leveza perfumada; o ousado amendoim e tremoço com notas de wasabi e maracujá surpreendeu pelo equilíbrio improvável; e a beterraba e hibiscus com cardamomo e cravinho deixou-nos com a sensação de beber um perfume intenso e profundo. Foi também a primeira vez que ele percebeu que um copo sem álcool podia ter tanta complexidade quanto um vinho.
No prato, a viagem seguiu o mesmo ritmo. O arroz de trigo sarraceno com azeitonas abriu de forma estaladiça e surpreendente, seguido pela coalhada de tomate e melancia, fresca, frutada e cremosa. O lírio com berbigão e wasabi trouxe um sopro marítimo direto e apetecível. Bravo, chef! Mas foi o carabineiro com açorda em espuma e acelgas que arrancou sorrisos cúmplices: incrível na textura, reconfortante no sabor.
Seguiram-se a lula com feijão bago de arroz e sabugueiro, original no jogo de texturas; a corvina com percebes e espinafres, onde o mar e a terra se encontravam; e o porco ibérico com figo e lima caviar, prato que nos apaixonou pela explosão cítrica.
No CURA, cada prato é pensado como uma obra de curadoria — filosofia que o nome traduz e que se sente à mesa. O restaurante, inaugurado em 2020, conquistou uma estrela Michelin sob a liderança de Pedro Pena Bastos. Desde 2025, está nas mãos de Rodolfo Lavrador, que trouxe uma visão cosmopolita adquirida em Madrid, Nova Iorque e Londres, sem nunca perder a ligação à tradição portuguesa e à sustentabilidade.
Tudo isto num cenário que poderia estar em qualquer uma destas capitais do mundo, mas também em lugares menos óbvios e igualmente marcados por um luxo sereno, como Capri ou Montecarlo. Mesas espaçadas, luz precisa, obras de arte contemporânea e um ambiente que respira requinte old money, sem ostentação.
E, no meio de tanta excelência, o que mais me marcou foi o silêncio entre pratos preenchido pelas nossas conversas. Olhar para ele e pensar em como cresceu tão depressa, em como se transformou num homenzinho do qual tanto me orgulho. A cada jantar como este percebo que não basta conviver — é preciso parar para criar momentos de verdadeira ligação. Atrevo-me a afirmar que todas as mães deviam instituir, uma vez por mês, ou trimestre, ou ano — o que for possível — um programa a dois com os filhos. Uma experiência que cria memórias e que nunca se esquece.
No final, não foi apenas o prestígio de um restaurante Michelin que ficou gravado. Foi a certeza de que partilhar tempo de qualidade é o maior luxo de todos. Para mim, a revelação de uma harmonização inesperada e tempo real passado com a pessoa que mais adoro; para ele, a consciência plena da primeira estrela.
E ficou ainda uma promessa: voltaremos a viver uma experiência destas daqui a uns anos, quando, já com 18 anos, pudermos harmonizar a viagem gastronómica com grandes vinhos. Será mais uma descoberta a partilhar entre mãe e filho.
CURA
Chef: Rodolfo Lavrador (desde 2025)
Morada: Four Seasons Hotel Ritz Lisboa, Rua Rodrigo da Fonseca, 88, Lisboa
Menus de degustação: 5 ou 10 momentos
Harmonizações: opção vínica ou não alcoólica (infusões)
Horário: Jantar, todos os dias, das 19h30 às 23h00
Reservas: site Four Seasons Hotel Ritz Lisboa ou +351 21 381 1400















