Neste mês de maio, Lisboa concentra dois grandes momentos de arte e colecionismo: a LAAF e a ARCOlisboa regressam à Cordoaria Nacional, cruzando património, mercado e criação contemporânea.
Maio põe Lisboa a colecionar o presente e o passado. E a cidade vai passar boa parte do mês dentro da Cordoaria Nacional, esse edifício comprido, naval, onde a arte gosta de ensaiar encontros improváveis. Primeiro chegam as antiguidades, a pintura antiga, as pratas, o mobiliário, a joalharia, os objetos com biografia longa e currículo silencioso. Depois entra a arte contemporânea, com galerias portuguesas e internacionais, artistas emergentes, projetos curatoriais e o frenesim controlado de quem olha para uma obra tentando perceber se está diante de uma pergunta, de uma provocação ou de uma futura obsessão privada.
A LAAF – Lisbon Art & Antiques Fair decorre de 9 a 17 de maio e a ARCOlisboa realiza-se de 28 a 31 de maio, ambas na Cordoaria Nacional. No intervalo de poucas semanas, Lisboa recebe duas feiras com naturezas distintas, públicos diferentes e uma ambição comum: afirmar a cidade como ponto de encontro para colecionadores, galeristas, antiquários, curadores, designers de interiores, arquitetos, artistas e visitantes com apetência para olhar demoradamente para as coisas.
A leitura mais óbvia colocaria a LAAF do lado da memória e a ARCOlisboa do lado do presente. Seria uma arrumação prática, mas demasiado óbvia. A edição de 2026 da LAAF faz exatamente o contrário: aproxima arte e antiguidades de uma reflexão contemporânea sobre património, autenticidade, sustentabilidade, cultura material e modos de viver com objetos. A ARCOlisboa, por seu lado, não se limita a mostrar o agora. A nova secção Archipelago of Art Histories propõe uma leitura sobre heranças, linhagens e formas de conhecimento que continuam a atravessar a criação atual. Maio, afinal, não vai separar épocas. Vai pô-las a conversar, talvez com algum sarcasmo fino pelo meio. Uma cómoda do século XVIII e uma instalação contemporânea têm mais assunto em comum do que alguns jantares de família.
A cidade como sala de colecionador
A LAAF regressa em 2026 para a sua 23ª edição, novamente organizada pela APA – Associação Portuguesa dos Antiquários. A feira ocupa a Cordoaria de 9 a 17 de maio e assume-se como um ponto de encontro para o mercado, a investigação, o património e a criação artística. A seleção percorre um território vasto: Antiguidade Clássica, períodos renascentistas, séculos XVII e XVIII, pintura, escultura, mobiliário, pratas, joalharia e design contemporâneo.
Este é um detalhe importante. A LAAF já não se apresenta apenas como feira de antiguidades para iniciados. O certame tem vindo a trabalhar uma dimensão mais aberta, internacional e cenográfica, capaz de dialogar com públicos que chegam por caminhos diferentes: colecionadores experientes, conservadores de museus, decoradores, arquitetos, designers de interiores e visitantes que podem não dominar todos os códigos, mas reconhecem a força de uma peça bem escolhida.
A cenografia volta a estar a cargo do OITOEMPONTO, depois de quatro colaborações anteriores. A escolha reforça uma estratégia visível: aproximar a feira de uma gramática expositiva mais contemporânea, com leitura espacial, ambiente, mise-en-scène e capacidade de criar desejo sem transformar património em cenário. A fronteira é delicada. Um objeto antigo precisa de contexto, mas também de ar. Precisa de ser mostrado sem ser embalsamado. Quando a cenografia funciona, a peça não parece saída de um depósito reverente, mas de uma casa que ainda pensa.
A edição deste ano introduz também uma ambição editorial mais marcada. O catálogo da LAAF deixa de ser apenas documento de consulta e passa a funcionar como território de pensamento, dedicado ao tema “Arte e Antiguidades, do Clássico ao Contemporâneo”. A proposta é observar a forma como objetos artísticos, utilitários e simbólicos atravessam épocas e continuam a influenciar a nossa perceção de património, memória e criação. Entre os autores convidados estão Bárbara Coutinho, diretora do MUDE; Joana Sousa Monteiro, diretora do Museu da Cidade; Adelaide Duarte; António Filipe Pimentel; João Paulo Queiroz; e Augusto Alves Salgado.
Também regressam as “Conversas Sobre Arte”, com painéis dedicados a temas que interessam tanto ao mercado como à cidade. A programação inclui uma conversa sobre pratas antigas e contemporâneas, o lançamento de “Magnânimo — Um faqueiro de ouro para o Rei de Portugal”, um painel sobre falsificações e mercado de arte, a apresentação da edição de primavera da A Magazine e uma palestra sobre o quotidiano da mesa real no Palácio da Ajuda, de 1862 a 1910. A antiguidade, quando bem tratada, raramente fica quieta.
ARCOlisboa, dez anos de presença e uma edição com escala
No final do mês, a Cordoaria muda de respiração. De 28 a 31 de maio, a ARCOlisboa realiza a sua 9.ª edição e assinala dez anos de presença na cidade. Organizada pela IFEMA MADRID e pela Câmara Municipal de Lisboa, a feira apresenta 86 galerias de 19 países, com 30 galerias portuguesas, que representam 35% da participação total, e 56 galerias internacionais.
A escala importa, mas não explica tudo. A ARCOlisboa tem vindo a ocupar uma posição própria no calendário europeu: suficientemente internacional para atrair galerias, colecionadores e profissionais de vários mercados; suficientemente ligada à cidade para não se diluir numa feira genérica. Lisboa entra aqui como palco, mas também como argumento. A programação paralela em museus, instituições, galerias e coleções privadas ajuda a transformar a feira num momento alargado da cidade.
O Programa Geral reúne 63 galerias selecionadas pelo Comité Organizador. A edição de 2026 integra estreias como Marcelo Guarnieri, Aninat e AA Gallery, regressos como Juan Silió e CarrerasMugica, além de galerias que transitam da secção Opening Lisboa para o programa geral, casos de Salgadeiras, Ackerman Clarke e Río & Meñaka. A lista inclui ainda nomes com presença consolidada, como 3+1 Arte Contemporânea, Kubikgallery, Cristina Guerra Contemporary Art, Francisco Fino, Pedro Cera, Vera Cortês, Ehrhardt Flórez, Each Modern, Leandro Navarro, Sabrina Amrani, Zeller Van Almsick e Consonni Radziszewski.
Os projetos SOLO, integrados no Programa Geral, permitem um contacto mais aprofundado com artistas internacionais. A edição destaca, entre outros, Susana Rocha, apresentada pela ATM; Gloria Martín Montaño, pela Galería Silvestre; Vanessa da Silva, pela Duarte Sequeira; Christian Lagata, pela Artnueve; Catarina Real, pela Ángeles Baños; Sandra Mar, pela Rosa Santos; Francisco Correia, pela Nave; Virgilio, pela José de la Mano; e Carsten Fock, pela Zeller Van Almsick.
A secção Opening Lisboa continua a funcionar como zona de descoberta, dedicada a novas linguagens e espaços. Curada por Sofía Lanusse e Diogo Pinto, com assistência de Sofia Montanha, reúne 17 galerias e inclui regressos como Chilli, Dialogue e Enhorabuena Espacio, além de novos participantes como Heliconia Projects, Plato, Remota, Salón Silicón e Vision Art Platform.
A novidade mais conceptual desta edição é o projeto Archipelago of Art Histories, liderado por Cosmin Costinas. A proposta observa linhagens, saberes herdados e formas de transmissão que continuam a informar práticas contemporâneas. Participam seis galerias, com artistas como Irene Chou, Gabriel Chaile, Nadia Taquary e Tsherin Sherpa. O título tem qualquer coisa de cartografia fragmentada, e talvez faça sentido: a história da arte raramente é uma avenida reta. Muitas vezes é um arquipélago, com ilhas que só se ligam quando alguém muda o ângulo do olhar.
Um mês para ver, comprar, estudar e circular
O interesse destes dois eventos está no modo como se completam sem se confundirem. A LAAF trabalha a confiança, a proveniência, a matéria, a autenticidade, a relação longa com o objeto. A ARCOlisboa coloca a tónica na criação contemporânea, na galeria como agente cultural, na circulação internacional de artistas e na cidade como destino artístico. Uma olha para séculos de cultura material; a outra acompanha a produção que está ainda a fixar o seu lugar. Juntas desenham uma Lisboa mais densa, menos previsível, com músculo cultural para falar com diferentes gerações de colecionadores.
No caso da LAAF, a questão da confiança é central. Promovida pela APA, a feira sublinha o rigor de uma auditoria realizada por peritos especializados, que analisam a descrição dos objetos em termos de veracidade, qualidade, época e proveniência. Comprar arte antiga ou antiguidades é entrar numa cadeia de transmissão, aceitar a responsabilidade de conservar, estudar e devolver ao futuro algo que já passou por muitas mãos.
A ARCOlisboa, por sua vez, reforça a ideia de feira como ecossistema. Além das galerias, haverá novamente ArtsLibris, com cerca de 30 expositores nacionais e internacionais dedicados a publicações de artista, fotolivros, autoedição e publicações digitais, com acesso livre no Torreão Nascente. Regressam também os Millennium Art Talks, com conversas sobre colecionismo, mecenato e os conteúdos das secções curatoriais. A edição inclui ainda uma exposição antológica de Jorge Martins, organizada pela EGEAC, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, e “TRÊS. As coleções da Fundação EDP”, no Torreão Poente, assinalando o 10º aniversário do MAAT.
A feira terá ainda um lounge desenhado pela Lisbon Design Week, concebido como zona de descanso e ponto de encontro para visitantes, galeristas e profissionais. O detalhe parece logístico, mas diz muito sobre o modo como as feiras evoluíram. Já não basta mostrar obras. É preciso criar permanência, ritmo, conversa, uma coreografia que permita ver, parar, voltar atrás, pensar melhor e, se tudo correr perigosamente bem, comprar.
Maio transforma a Cordoaria num grande corredor de tempos. A LAAF abre a porta aos objetos que já provaram resistência. A ARCOlisboa chama os que ainda estão a construir destino. Lisboa fica com o privilégio de juntar ambos no mesmo mapa.
Datas: 9 a 17 de maio de 2026
Local: Cordoaria Nacional, Lisboa
Horário: todos os dias das 15h00 às 21h00; sábados até às 23h00
Bilhetes: individual, 15 euros; duplo com catálogo, 25 euros
Organização: APA – Associação Portuguesa dos Antiquários
Datas: 28 a 31 de maio de 2026
Local: Cordoaria Nacional, Lisboa
Organização: IFEMA MADRID e Câmara Municipal de Lisboa
Edição: 9ª edição, assinalando dez anos de presença da feira em Lisboa
Participação: 86 galerias de 19 países, incluindo 30 galerias portuguesas e 56 internacionais
















