O menu “Colheita”, assinado por Ricardo Costa no Restaurante Gastronómico do The Yeatman, entra na reta final com memória, técnica e um raro sentido de lugar. Marque mesa antes de maio.
Reserve já. É esse o verbo certo para este momento. Em maio, o Restaurante Gastronómico do The Yeatman entra numa nova fase e apresenta uma nova carta. Até lá, fica uma janela curta para regressar a um dos restaurantes mais consistentes, ambiciosos e premiados do país, numa altura em que o atual menu de degustação, “Colheita”, ainda pode ser vivido como foi pensado: inteiro, afinado, maduro, sem o ruído da novidade e com a segurança de quem sabe exatamente o que está a fazer.
O restaurante mantém duas estrelas Michelin em 2026, continua integrado no universo The Yeatman desde a abertura do hotel em 2010 e trabalha um menu sazonal fixo de 260 euros, com harmonizações vínicas e não alcoólicas disponíveis.
Convém dizer isto sem rodeios: voltar ao Gastronómico do The Yeatman não é apenas marcar jantar num endereço célebre de Vila Nova de Gaia. É aproveitar o fim de um ciclo. E, em restauração de autor, os fins de ciclo têm um interesse especial. A cozinha ganha precisão. Os pratos assentam. Os gestos já não precisam de se provar. Tudo chega à mesa com aquele ponto raro em que a ideia inicial e a execução final falam a mesma língua.
Ricardo Costa conhece bem esse território. Natural de Aveiro, com percurso consolidado em Portugal e no estrangeiro, assumiu a cozinha do The Yeatman desde a inauguração do hotel, em 2010. O restaurante conquistou a primeira estrela Michelin em 2011 e a segunda em 2017, distinção que mantém.
Uma carta que não cozinha apenas produto, cozinha memória
“Colheita” não foi construído para impressionar a qualquer preço. Foi desenhado para contar um percurso. O menu parte das memórias de infância do chef, passa por geografias afetivas e profissionais e cruza Portugal com referências asiáticas de forma inteligente. O resultado é um alinhamento que junta Aveiro, Algarve, Setúbal, Açores, Japão e Coreia numa narrativa que, curiosamente, nunca perde o sotaque português. Essa matriz está no próprio conceito da proposta, apresentada pelo chef como sazonal, sustentável e marcada por criatividade, memória e interação à mesa.
A experiência começa logo fora do automatismo habitual. Antes da mesa principal, surgem snacks servidos na sala de espera e depois um segundo momento na cozinha, o que dá à refeição um ritmo quase cénico. Primeiro, abre-se o apetite com referências delicadas como lírio fumado dos Açores com pepino e óleo de sésamo, gamba do Algarve com leitura inesperada do gaspacho alentejano e caranguejo de casca mole, produto que Ricardo Costa trabalha a partir de uma ligação muito pessoal a Aveiro. Depois entram citações mais declaradas à cultura popular portuguesa, como a terrina de frango inspirada nas churrasqueiras ou a santola que pisca o olho às marisqueiras, aqui elevada com caviar, gengibre e wasabi.
O interessante está precisamente na liberdade. O menu não trata a portugalidade como peça de museu. Mexe-lhe. Puxa-a para outras latitudes. Tira-a da vitrina e volta a pô-la em circulação. A ostra da Ria de Aveiro surge com maçã verde, camarinhas, galanga, jalapeño, lima kaffir e coentros. O lavagante encontra cogumelos, tutano, dashi e saqué. O salmonete aproxima-se da Coreia com daikon, kimchi e caldo de cebola tostada. Nada disto aparece como desfile de passaporte culinário. Aparece como linguagem de um cozinheiro que viajou, aprendeu e soube regressar.
É também por isso que o The Yeatman continua a ser um caso sério no panorama da alta gastronomia portuguesa. O luxo desta experiência não vive de efeitos especiais. Vive de afinação. Da vista sobre o Porto, claro, mas também da forma como a sala prepara a refeição, do serviço, do compasso da experiência e de uma coerência rara entre cozinha e vinho.
O próprio hotel sublinha essa simbiose como elemento central da proposta, com harmonizações desenhadas por Elisabete Fernandes, diretora de vinhos desde 2021, num restaurante que construiu parte da sua identidade precisamente nesse diálogo entre gastronomia contemporânea portuguesa e grande cultura vínica. Em 2025, voltou mesmo a conquistar o Grand Award da Wine Spectator, distinção que o colocou de novo como o único restaurante português nessa lista internacional.
Não é um detalhe menor. No The Yeatman, o vinho não entra para acompanhar. Entra para pensar a refeição com a mesma seriedade com que se pensa o prato. Isso ajuda a explicar por que razão esta casa permanece tão relevante. Ricardo Costa parece ter escolhido o caminho da maturidade, identidade e foco.
No alinhamento principal de “Colheita”, isso vê-se de forma particularmente clara em pratos como o choco de Setúbal servido em forma de talharim sobre um cubo de gelo, com caviar, crocante de vieira e salicórnia, ou no tamboril apresentado em três confeções, texturas e intensidades, cabendo ao cliente definir a ordem da degustação. A cozinha interage. Não se fecha em dogma. Convida. O mesmo acontece com o bacalhau com grão-de-bico, grelos e mão de vitela e com o leitão da Bairrada, um dos pratos identitários do percurso do chef. A memória, aqui, não aparece como muleta sentimental. Aparece como matéria-prima.
Antes da nova carta, o momento é este
Faz sentido, por isso, olhar para estas semanas como um convite com prazo. A nova carta chega em maio. Quem conhece o restaurante sabe que cada renovação anual é levada a sério. O próprio The Yeatman descreve o menu como uma criação do chef com renovação anual e lembra que a proposta poderá sofrer alterações regulares. Isso torna este período especialmente apelativo para os clientes fiéis, mas também para quem ainda não se sentou nesta mesa e precisava de uma razão concreta para o fazer. Aqui está ela.
Regressar agora ao Gastronómico do The Yeatman tem qualquer coisa de inteligente. Não se vai apenas atrás de um nome consolidado. Vai-se apanhar um menu no seu ponto final, quando já perdeu a ansiedade de se apresentar e ganhou, em troca, profundidade. Vai-se rever Ricardo Costa numa fase de plena autoridade criativa. Vai-se confirmar porque é que esta morada continua a aparecer nas listas certas. E vai-se, também, despedir de uma carta que soube fazer uma coisa difícil: ser portuguesa sem ser previsível, sofisticada sem rigidez, ambiciosa sem excesso de pose. Nem sempre a urgência combina com elegância. Desta vez, combina.
Restaurante Gastronómico, The Yeatman
Morada: Rua do Choupelo (Santa Marinha), Vila Nova de Gaia
Horário: terça-feira a sábado, ao jantar, com seatings às 18h30, 19h30 e 20h30
Preço: menu de degustação sazonal fixo, 260€ por pessoa; harmonização The Prime Selection, 260€; The Yeatman Selection, 130€; Non-alcoholic Selection, 120€
Reservas e contactos: +351 220 133 100
E-mail: reception@theyeatman.com
















