No Casino de Monte-Carlo, um clube privado transforma o charuto em ritual de excelência: humidor monumental, bar de onyx, terraço sobre o Mediterrâneo e uma lista de membros curta como um segredo.
Fumar em 2026 é quase uma declaração de guerra à respiração coletiva. Acende-se um cigarro e levantam-se sobrancelhas, abrem-se aplicações de saúde, invoca-se a ciência, a moral e talvez um advogado. Mas o principado do Mónaco, que nunca teve grande vocação para pedir desculpa pelo prazer, encontrou uma forma muito própria de lidar com o assunto: se é para fumar, fuma-se num antigo gabinete histórico do Casino de Monte-Carlo, com humidor climatizado, bar de onyx, terraço sobre o Mediterrâneo e uma quota anual a partir dos seis mil euros. A culpa, quando existe, também gosta de estar bem instalada.
O Monte-Carlo Cigar Club abriu em Maio de 2025 dentro do Casino de Monte-Carlo, numa parceria entre a Monte-Carlo Société des Bains de Mer e a Dominique London, especialista em charutos e espirituosos. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, extraordinariamente específica: criar um clube ultra-privado para apreciadores de charutos, num lugar onde o fumo é tratado como liturgia. O clube ocupa o antigo gabinete de François Blanc, fundador da Société des Bains de Mer em 1863, a empresa que ajudou a transformar este pedaço rochoso da Riviera num dos grandes teatros internacionais do luxo.
O Mónaco, convém lembrar, não é propriamente tímido. O principado construiu uma relação muito particular com a abundância: casinos, iates, hotéis palacianos, Fórmula 1, gastronomia estrelada, joalharia que raramente passa despercebida e uma capacidade admirável de fazer da discrição uma encenação altamente coreografada. O Monte-Carlo Cigar Club entra nesse mesmo vocabulário. Não é um bar de charutos com pretensões de clube. É um clube fechado com todos os códigos de um mundo que continua a acreditar na importância do acesso, da recomendação, do detalhe e da demora.
A entrada fica no primeiro piso do casino, perto da Salle Garnier, a sala de ópera desenhada por Charles Garnier, o arquiteto da Ópera de Paris. O que já é revelador. Para chegar ao clube, não se tropeça nele. Sobe-se, passa-se por portas certas, entra-se num circuito reservado. O “The Times” descreve o acesso por elevador e a passagem para um enclave revestido a madeira, discreto até deixar de o ser. Lá dentro, a austeridade do segredo dá lugar ao prazer assumido: couro, cedro, luz quente, garrafas raras e charutos expostos com a reverência normalmente reservada a obras de arte pequenas, cilíndricas e inflamáveis.
O charuto como arquitetura
A agência Moinard Bétaille, responsável pelo desenho do espaço, trabalhou a partir de uma ideia particularmente feliz: fazer com que o clube respirasse a própria vida do charuto. A paleta acompanha as mutações do tabaco durante o processo de secagem, do verde ao castanho profundo, com passagens por tons de bronze, vermelho, azul e rosa que evocam Havana e a luz da Côte d’Azur. Não se trata de decoração temática, essa praga que transforma qualquer referência em cenário de parque de diversões. Aqui, a atmosfera é mais contida, mais tátil, feita de madeira, pedra, couro, vidro e reflexos.
O clube soma pouco mais de 200 metros quadrados, combinando sala de fumo, bar, humidor walk-in e terraço. A Société des Bains de Mer apresenta-o como um espaço excepcional dentro do seu resort, pensado para membros com acesso a uma seleção curada de charutos, espirituosos e eventos dedicados ao universo do tabaco premium. A própria formulação oficial evita a banalidade da palavra “lounge”. E faz bem. Lounge é onde se espera por um voo. Isto quer ser outra coisa: um abrigo para quem acredita que o luxo ainda pode exigir tempo, silêncio socialmente aceitável e um certo respeito por rituais que não cabem em stories de sete segundos.
O coração técnico do clube é o humidor. Segundo o The Times, a colecção inclui 279 tipos de charutos, com cerca de 16 mil unidades guardadas no local e mais 20 mil armazenadas noutro espaço. O humidor mantém 72% de humidade e 18 graus constantes, protegido por uma porta de três metros e mais de 250 quilos, quase uma entrada para cofre. A imagem é deliciosa: não se guarda tabaco, guarda-se valor. Algumas referências confirmam a escala da ambição, como o Cohiba Talisman, apontado a 540 euros, ou o Davidoff Oro Blanco, cujo tabaco soma 111 anos de idade combinada e chega aos 800 euros.
O pormenor técnico não é cosmética. Um charuto mal conservado perde óleos essenciais, aroma, textura e, com eles, a razão de existir. Neste universo, a humidade não é um capricho de entendidos com tempo a mais; é a fronteira invisível que separa prazer de desperdício. A empresa italiana DeArt terá assinado o humidor, enquanto o sistema de filtragem do ar foi pensado para permitir que os membros fumem no interior sem que o espaço se transforme numa nuvem de casino antigo. O The Times refere um sistema de filtragem avaliado em 250 mil euros, com extração através de perfurações no soalho e no teto. O vício, neste caso, vem com engenharia de ponta e complexo de spa.
A ironia é irresistível. Num tempo em que se descontamina tudo, o Monte-Carlo Cigar Club criou uma sala para fumar onde quase não se sente fumo. O ar é purificado, a temperatura controlada, a atmosfera disciplinada. A transgressão aparece com luvas. O charuto continua lá, claro, mas tratado como produto de origem, como garrafa rara, como objeto de coleção. A combustão acontece, porém educada à mesa dos bons modos.
Um clube, não um balcão
A exclusividade não vive apenas na decoração. O Monte-Carlo Cigar Club funciona por adesão privada e sistema de recomendação. O The Times refere apenas 80 membros e a necessidade de dois membros proporem cada novo candidato, com três categorias de adesão: Member, Ambassador e Founder. As quotas anuais começam nos 6.000 euros. Não é uma subscrição. É uma triagem social com cinzeiro de mármore.
A escolha faz sentido no Mónaco, onde o luxo sempre teve menos a ver com excesso visível do que com acesso codificado. Qualquer pessoa pode olhar para o Casino de Monte-Carlo. Poucos entram nas salas certas. Menos ainda sobem até um clube onde a coleção de charutos inclui Cuba, Nicarágua, República Dominicana, Costa Rica, Honduras e Peru, com marcas como Arturo Fuente, Cohiba, Davidoff, Montecristo e Trinidad referidas em antecipações internacionais sobre a abertura.
O bar acompanha o tom. Onyx no balcão, bancos confortáveis, prateleiras retroiluminadas e uma carta de espirituosos pensada para emparelhar com charutos premium. Armagnacs, runs de propriedade única, whiskies de edição limitada e cognacs raros, incluindo o Macallan Horizon, colaboração da Macallan com a Bentley, e até um cognac Cohiba criado pela Martell em parceria com a marca de charutos. O clube sabe que um bom charuto raramente viaja sozinho. Pede copo, conversa, cadeira confortável e ausência de pressa.
Este é talvez o ponto mais interessante do projeto. O Monte-Carlo Cigar Club não vende apenas a possibilidade de fumar. Vende autorização para demorar. Numa era em que até o lazer tem KPI, o charuto ainda obriga a um ritmo incompatível com ansiedade produtiva. Não se fuma um grande charuto a correr para a próxima reunião. Não se acende uma peça de 800 euros com a cabeça no feed. É preciso ficar. E ficar, hoje, tornou-se quase uma excentricidade. Especialmente quando acompanhado por um cognac com pedigree e uma vista que não pede filtro.
O terraço faz o resto. Com mais de 100 metros quadrados, abre-se sobre a Avenue de Monte-Carlo e o Mediterrâneo, prolongando o clube para fora da madeira e do couro. A imagem é quase indecente: mar azul, sol da Riviera, poltronas em pele, mesas de mármore, cinzeiros de escala monumental e o Casino como pano de fundo. Para alguns, relaxar é meditar de olhos fechados. Para outros, é ver a luz bater na água enquanto um charuto arde devagar, com a confiança indecorosa de quem sabe que o mundo lá fora continuará a discutir hábitos saudáveis.
O prazer em tempos higiénicos
Naturalmente, o tema chega com fumo à volta. A cultura contemporânea tem pouca paciência para o tabaco, e com razão quando falamos de saúde pública, ambientes fechados, dependência e exposição involuntária. Mas o charuto ocupa uma zona cultural diferente do cigarro automático da pausa no passeio. Não se trata de defender o fumo como virtude, nem de o embrulhar em romance irresponsável. Trata-se de observar como certos rituais sobrevivem quando são deslocados para espaços privados, altamente controlados e quase museológicos.
O Monte-Carlo Cigar Club é filho desse tempo contraditório. Por um lado, nasce numa era que desconfia do fumo. Por outro, responde precisamente a essa desconfiança com a gramática certa: privacidade, curadoria, tecnologia, acesso limitado, serviço especializado e uma narrativa de património. O charuto deixa de ser vício socialmente espalhado e passa a experiência confinada, regulada, cara, quase arqueológica. Um prazer antigo com passaporte biométrico.
Também por isso, o projeto é tão monegasco. A Riviera sempre soube transformar comportamentos discutíveis em pequenas óperas de estilo. O casino transformou o jogo em arquitetura. Os hotéis transformaram férias em diplomacia social. As caves do Hôtel de Paris transformaram vinho em património subterrâneo, com centenas de milhares de garrafas guardadas debaixo da cidade. Agora, o clube transforma o charuto em clube privado, com o mesmo gosto pelo cenário, pela linhagem e pelo detalhe quase teatral.
O resultado pode parecer excessivo. E é. Mas o luxo raramente foi interessante quando se limitou a ser prudente. A questão está na qualidade do excesso. Aqui, o exagero não grita. Pesa. Uma porta de 250 quilos para proteger charutos. Um sistema de filtragem de ar digno de laboratório. Um humidor onde a temperatura tem a estabilidade emocional que falta a metade do planeta. Um bar pensado para que cada copo converse com cada folha de tabaco. Tudo isto poderia ser ridículo. Em Monte-Carlo, torna-se plausível.
O clube dirige-se a uma tribo pequena, global, habituada a pagar pelo que muitos nem imaginam desejar. Para esses membros, o charuto não é só tabaco enrolado. É origem, safra, espera, corte, chama, desenho, combustão, conversa. Um objeto manual que desaparece enquanto é apreciado. Talvez seja essa a sua extravagância mais estranha: ao contrário de um relógio, de uma jóia ou de um automóvel, o charuto não se conserva. Consome-se. O prazer deixa cinza. Cancelável? Talvez. Memorável? Sem dúvida. E, no mínimo, muito bem ventilado.
Morada: Casino de Monte-Carlo, Place du Casino, Mónaco
Coleção: cerca de 279 referências de charutos, com 16.000 charutos no local e mais 20.000 armazenados noutro espaço
Adesão: clube privado, por recomendação, com categorias Member, Ambassador e Founder
Quota anual: a partir de 6.000 euros

















