De São Romão para Londres, dos copos lavados às provas privadas com colecionadores, das vinhas ancestrais do Alentejo às encostas dramáticas do Mosel ou Priorat, Cláudio Martins construiu um percurso raro. Wines From Another World é a expressão máxima dessa ambição: um universo de vinhos que procuram elevar Portugal no mapa global da exceção.
A história de Cláudio Martins começa longe de tudo aquilo que hoje define o seu universo profissional. Começa num lugar onde a montanha impõe respeito e onde a família é presença constante. Em São Romão, na Serra da Estrela, o vinho não surgia como objeto de culto ou investimento; era um protagonista de mesa, uma ligação à terra. As primeiras memórias chegam do avô Manoel, de pequenas vinhas carregadas ao colo, de uvas roubadas antes da pisa, de um lagar que cheirava a infância. Nada que antecipasse um futuro entre alguns dos colecionadores mais influentes do mundo.
O improvável não veio das origens, mas do caminho. Aos 12 anos, uma experiência desastrosa com vinho caseiro em plena fermentação levou-o ao hospital – um episódio que o afastou do vinho até quase à idade adulta. Só mais tarde, já em Londres, descobriria essa dimensão totalmente nova que o fascinaria para sempre: o vinho como cultura, como memória, como património, como gesto artístico. O vinho enquanto linguagem.
Chegou à capital britânica aos 19 anos, sem rede e sem destino claro, mas com a curiosidade que sempre o acompanhou. Começou por lavar copos, por ouvir conversas, por observar escolhas. Descobriu vinhos austríacos, alemães, neozelandeses, vinhos que nunca imaginara existir. E, sobretudo, descobriu pessoas que falavam de vinho com a precisão com que se fala de arquitetura, relojoaria ou artes plásticas.
Quando, poucos anos depois, se tornou gerente de uma garrafeira em pleno finantial district, percebeu que esse mundo tinha regras próprias. Ali entrou pela primeira vez em contacto com colecionadores que tratavam o vinho como um ativo emocional e financeiro, que recebiam garrafas raras como quem recebe uma obra de arte. Ali também começou a afinar um talento essencial ao seu percurso: o de acompanhar alguém na compra, no gosto, no gesto, na garrafa, na história. Nascia, pouco tempo depois, a Martins Wine Advisor.
“Quero elevar o que fazemos e mostrar que somos capazes”
A consultoria não era um destino evidente, mas tornou-se inevitável. Cláudio apercebeu-se de que o vinho podia ser explicado, curado, interpretado – e que essa interpretação, quando feita com rigor e proximidade, criava confiança. Ao longo dos anos, foi construindo relações com clientes que deixaram de o ver como consultor e passaram a vê-lo como referência, alguém a quem telefonam de um restaurante em Zurique ou Hong Kong para partilhar um vinho que os surpreendeu.
Mas quanto mais viajava, mais se reforçava a sensação de que Portugal, apesar da qualidade indiscutível, continuava sem uma presença forte no segmento mais restrito do vinho mundial. O turning point aconteceu em 2018, no Lago de Como, durante um encontro de colecionadores. Cláudio levou um vinho do Porto de 1863 – peça histórica que impressionou todos – mas percebeu algo desconfortável: os vinhos portugueses não estavam no mesmo palco dos grandes nomes do planeta. Faltava narrativa, posicionamento, imaginação. Faltava ambição.
Dessa inquietação nasceu a ideia de criar vinhos capazes de mudar perceções – vinhos tão singulares que obrigassem o mundo a olhar para eles. Era o embrião de Wines From Another World.
“Cada planeta é uma declaração de intenção”
Com Pedro Marques Antunes, designer e parceiro criativo, nasceu uma identidade visual e conceptual que unia ciência, estética e terroir. A coleção ficou definida à partida: nove vinhos, nove regiões, nove produtores de culto, nove expressões da exceção. Cada planeta teria alma própria – método, lugar, tempo e ritmo específicos.
Júpiter marcou o início. Produzido com a Herdade do Rocim, foi fermentado em ânforas (talhas) e permaneceu ali quatro anos. Uma leitura radical da técnica ancestral portuguesa, que devolveu ao mundo a profundidade de um método com mais de dois milénios.
Uranus, em Priorat, com Dominik Huber, trouxe a transparência extrema da viticultura biológica e biodinâmica. É um vinho de minúcia, de silêncio, de pureza – daqueles que parecem crescer mais na vertical do que na horizontal.
Saturn, no Mosel, mergulha em vinhas de mais de 130 anos, plantadas em solos de xisto vermelho. Um Riesling raro, denso e vibrante, com uma profundidade mineral que só nasce onde o declive é tão dramático quanto a história.
Neptune, lançado em julho de 2025, nasce de sangiovese de altitude na Toscânia. Lamole e Olmo fornecem as uvas; as mãos que as trabalham aplicam tripla seleção manual e dez anos de estágio em madeira usada. O resultado é uma leitura íntima e intemporal do Chianti Classico.
Em julho de 2026 chegará o quinto planeta.
“Estes vinhos não são feitos para serem muitos - são feitos para serem certos”
O luxo, para Cláudio Martins, está na intenção. No rigor. No sentido da raridade. WFAW é um projeto onde nada se repete: cada planeta tem lógica própria, terroir próprio, tempo próprio. As edições variam entre 500 e 2000 garrafas. Não há pressa. Não há atalhos. Não há tentativa de agradar a todos. Cláudio Martins procura produtores com uma certa rebeldia serena – aqueles que conhecem profundamente o seu território, mas não se deixam tolher pelos seus limites. O resultado são vinhos que vivem tanto do que revelam como do que sugerem.
Para além da dimensão técnica, existe a dimensão humana, talvez a mais decisiva. Cláudio Martins insiste que o vinho só faz sentido quando provoca emoção, quando fica na memória, quando marca encontros. Essa é a relação que cultivou com os colecionadores que o acompanham há anos: vínculos construídos a partir da escuta, do cuidado e da partilha.
O clube associado aos vinhos – onde cada garrafa tem um código único – é parte dessa visão: criar comunidade, criar experiência, criar continuidade. Não é apenas sobre o vinho que se bebe, mas sobre o momento que ele faz existir.
“O futuro do vinho português depende de falarmos a uma só voz.”
Quando fala do futuro, Cláudio Martins regressa a uma preocupação antiga: Portugal tem talento, terroirs múltiplos, castas únicas e uma história que o diferencia. Falta-lhe, no entanto, unidade. Falta-lhe comunicação comum. Falta-lhe ambição alinhada.
O desejo de Wines From Another World é, em parte, ajudar a abrir essa porta: mostrar que Portugal tem lugar no segmento mais exigente do planeta – e que esse lugar pode ser conquistado com rigor, inovação e uma leitura contemporânea do luxo. O quinto planeta será mais um passo nesse caminho.











