Na semana em que revelou a Red Carpet Collection 2026, a Chopard brilhou também no Met Gala, escolhida por Beyoncé (entre outros) para um momento de alta joalharia em escala máxima.
A alta joalharia gosta de escolher bem o seu palco. Precisa de luz, de distância, de tempo para ser vista e de proximidade para se perceber o trabalho invisível que sustenta cada pedra. Na mesma semana em que a Chopard revelou os primeiros contornos da sua nova Red Carpet Collection, pensada para brilhar no Festival de Cannes, Beyoncé subiu as escadas do Met Gala com um conjunto de peças da maison suíça que dispensava legendas.
De um lado, Cannes. Cinema, Croisette, vestidos feitos para atravessar flashes e a tradição de uma coleção anual que se tornou parte da linguagem própria da Chopard. Do outro, Nova Iorque. O Met Gala, esse grande exercício de moda como espectáculo cultural, social e mediático, este ano dedicado à exposição “Costume Art”, do Costume Institute, que explora a relação do vestuário com o corpo e com a arte.
No meio, a Chopard. Ou, melhor, a forma como a casa fundada em 1860 continua a trabalhar uma ideia muito específica de presença: jóias que não servem apenas para completar um look, antes para lhe alterar a temperatura.
Miracles, a coleção que olha para o extraordinário discreto
A Red Carpet Collection 2026 chama-se Miracles e nasce da visão de Caroline Scheufele, copresidente e diretora artística da Chopard. A coleção será revelada no contexto do Festival de Cannes, onde a maison mantém uma ligação profunda enquanto parceira oficial do evento. Segundo a marca, esta relação, construída ao longo de quase duas décadas, tem criado uma ponte muito própria entre cinema, emoção, savoir-faire e alta joalharia.
O ponto de partida desta edição é menos teatral do que o nome poderia sugerir. Caroline Scheufele não fala de milagres grandiosos, impossíveis ou religiosos. Prefere procurar o assombro nas coisas que passam depressa: uma luz inesperada, a forma de uma nuvem, uma flor que nasce numa cor improvável, a beleza de uma pedra formada nas profundezas da terra. “Os milagres ão, muitas vezes, modestos”, diz a diretora artística, sublinhando a ideia de uma beleza que nasce do detalhe e de uma emoção inesperada.
A primeira peça revelada dá escala a esta ideia sem a tornar pesada. Trata-se de um colar em ouro branco ético de 18 quilates, centrado numa safira Royal Blue de 88 quilates, lapidada em forma de almofada. A partir desta pedra central, a composição abre-se em cascatas de safiras e águas-marinhas, com diamantes a marcar os pontos de luz. A ficha técnica confirma a dimensão da peça: 134,19 quilates de safiras, 52,45 quilates de águas-marinhas, 34,31 quilates de diamantes redondos e 2,41 quilates de diamantes em forma de pêra.
A peça parece construída a partir do encontro da terra com o céu. A safira central tem densidade mineral, quase gravidade. As águas-marinhas e as safiras em cascata acrescentam movimento. Os diamantes, quando surgem, fazem aquilo que os diamantes sabem fazer melhor: acendem a superfície.
Dentro dos ateliers de alta joalharia da Chopard, em Genebra, esta ideia passa por várias mãos. Ourives, cravadores e lapidadores trabalham materiais que já trazem uma história longa antes de entrarem no desenho. A marca sublinha o uso de ouro ético e a paciência necessária para transformar cada criação numa peça única, onde nenhuma interpretação se repete exatamente.
Este é, aliás, um dos pontos que torna a Red Carpet Collection mais interessante do que uma simples montra de jóias para celebridades. A coleção vive do espetáculo, claro. Seria ingénuo fingir o contrário. Mas o espetáculo é apenas a última camada. Antes dele, existe a inteligência do tema, a escolha das pedras, o desenho, a construção, a engenharia da leveza, a tensão constante entre exuberância e controlo.
A passadeira como extensão do atelier
A ligação da Chopard a Cannes não é de agora. A maison criou a Palme d’Or desde 1998 e, ao longo dos anos, transformou a sua presença no festival numa espécie de calendário paralelo da alta joalharia. Cada nova Red Carpet Collection funciona como coleção, mas também como narrativa anual: uma forma de Caroline Scheufele inscrever um tema no corpo das pedras.
Em 2026, esse tema ganha particular força porque surge numa altura em que a alta joalharia parece cada vez menos interessada em ser apenas estatuto. As grandes casas continuam a trabalhar pedras excecionais, valores elevados e técnicas raras, mas o verdadeiro luxo já não vive só da dimensão do quilate. Precisa de intenção. Precisa de uma ideia que aguente o olhar depois do primeiro impacto.
Miracles responde a esse desejo com uma certa contenção poética. Não abdica do esplendor, nem teria de o fazer. Uma safira Royal Blue de 88 quilates não entra numa sala em bicos de pés. Ainda assim, a coleção propõe uma leitura menos óbvia da opulência: a de peças que captam fenómenos naturais, pequenas epifanias visuais, instantes que poderiam passar despercebidos. O milagre, aqui, não está em suspender as leis do mundo. Está em reparar nelas.
A Croisette será, naturalmente, o palco ideal para essa dramaturgia. Cannes tem uma qualidade particular: transforma joalharia em linguagem cinematográfica. Um colar não é só um colar quando atravessa a passadeira vermelha junto ao mar, diante de fotógrafos, realizadores, atrizes, produtores e marcas que conhecem demasiado bem o valor de uma imagem bem colocada.
Beyoncé no Met Gala: alta joalharia em modo maior
Enquanto Cannes se preparava para receber a nova coleção, a Chopard brilhou noutro cenário com apetite global. No Met Gala de 2026, realizado a 4 de maio, Beyoncé escolheu um conjunto de jóias da maison para acompanhar uma criação de Olivier Rousteing. A cantora, uma das figuras centrais da noite, usou peças que cruzavam diferentes universos da Chopard: The Garden of Kalahari, Red Carpet 2026 e Precious Lace.
O colar, em ouro branco Fairmined de 18 quilates, pertence à coleção The Garden of Kalahari e tem como centro um diamante de corte brilhante de 6,41 quilates, rodeado por 140 quilates de diamantes. A pulseira da mesma coleção elevava ainda mais a fasquia: dois diamantes de corte esmeralda, de 21 e 14,7 quilates, acompanhados por 36,74 quilates adicionais de diamantes.
A este conjunto somou-se uma pulseira da Red Carpet Collection 2026, em ouro branco ético de 18 quilates, com uma esmeralda cabochão de 50,99 quilates, 55,58 quilates de diamantes marquise, 16,08 quilates de diamantes redondos e 10,79 quilates de diamantes em forma de pêra. Beyoncé usou ainda brincos da coleção Precious Lace, também em ouro branco de 18 quilates, com 13,45 e 3,77 quilates de diamantes.
A escala é quase absurda, no melhor sentido. Mas em Beyoncé a alta joalharia raramente parece excesso gratuito. A cantora tem uma presença construída para suportar peças que, noutra pessoa, poderiam esmagar a leitura visual. No Met, a Chopard não apareceu como acessório. Fez parte da arquitetura da imagem.
A escolha também ganha outro peso por surgir num Met Gala particularmente observado. Segundo a Vogue, a edição de 2026 atingiu números recorde de audiência e engagement, com 1,696 mil milhões de visualizações globais em vídeo durante a segunda-feira do evento e o dia seguinte, além de 108 milhões de interações sociais em todo o mundo.
Num contexto destes, uma jóia deixa de viver apenas no corpo que a usa. Passa para ecrãs, galerias, stories, zooms, recortes, comentários e arquivos digitais. A alta joalharia contemporânea já não pertence só ao salão privado, ao cofre ou ao jantar discreto. Também se joga nesta circulação veloz de imagem. A diferença está na capacidade de resistir à velocidade.
Quando a pedra segura a narrativa
A aparição de Beyoncé no Met Gala e a apresentação da Red Carpet Collection 2026 poderiam ser lidas como dois acontecimentos paralelos. Na verdade, contam a mesma história em dois tons. A coleção Miracles mostra a Chopard no momento da conceção: o tema, a pedra central, a natureza como argumento, o atelier como lugar de transformação. O Met Gala mostra a maison já em circulação, confrontada com a celebridade, a performance, a escala mediática e a memória visual de uma noite construída para ser vista, revista e arquivada.
Beyoncé foi, naturalmente, o nome mais magnético dessa constelação. A cantora escolheu peças de alta joalharia da Chopard que cruzavam diferentes universos da casa. Mas a noite da Chopard não se resumiu à Queen B. Amelia Gray, Emma Chamberlain, Georgina Rodríguez, Liu Wen, Rauw Alejandro, Sabrina Carpenter e Yseult também surgiram com jóias da maison, cada um a levar a alta joalharia para um território diferente.
Em Amelia Gray, o brilho dos diamantes encontrou o dramatismo de um look negro, com a jóia a funcionar quase como ponto de luz controlado. Emma Chamberlain levou a linguagem da Precious Lace para um registo mais jovem e gráfico, onde os brincos não suavizavam o visual, antes lhe acrescentavam precisão. Georgina Rodríguez surgiu envolta num véu azul-claro, com brincos The Garden of Kalahari a aparecerem através da transparência, num jogo de delicadeza e teatralidade. Liu Wen optou por uma leitura depurada, com branco, linhas limpas e jóias Chopard usadas com a economia certa. Rauw Alejandro levou a alta joalharia para um universo mais urbano e performativo, com relógio, anéis e peças de orelha em diálogo com o preto vinil. Sabrina Carpenter trabalhou uma imagem quase cinematográfica, entre cinema antigo e pop contemporâneo. Yseult, por sua vez, usou brincos de presença escultórica, numa composição onde ouro, preto e sombra tinham tanto peso como os diamantes.
Esta diversidade importa. Durante muito tempo, a alta joalharia foi lida em red carpet de forma relativamente previsível: colares de grande aparato, brincos de diamantes, pulseiras em cascata, tudo em torno de uma ideia clássica de glamour. O Met Gala, pela sua natureza mais experimental, obriga as casas a outra destreza. A jóia já não pode limitar-se a brilhar. Tem de conversar com conceitos, silhuetas, referências históricas, ironias visuais, códigos de género, cultura pop e pequenos gestos de provocação estética.
A Chopard parece confortável nesse território. A maison não abdica da sua linguagem de alta joalharia, nem da raridade das pedras, nem do savoir-faire dos ateliers de Genebra. Mas aceita que uma peça possa ganhar sentidos muito diferentes consoante quem a usa. Um colar em Beyoncé torna-se afirmação de poder. Uns brincos em Liu Wen podem ser quase uma linha de luz. Uma peça de orelha em Rauw Alejandro desloca a joalharia para um território menos previsível. Uma pulseira com esmeralda cabochão, pertencente à Red Carpet Collection 2026, entra no Met Gala como antecipação viva do que a coleção irá revelar em Cannes.
A semana foi, por isso, particularmente feliz para a Chopard. De um lado, apresentou Miracles, uma coleção que procura o extraordinário nos detalhes da natureza e nas surpresas do olhar. Do outro, ocupou o Met Gala com uma presença múltipla, capaz de atravessar estilos, corpos e personagens sem perder assinatura. A alta joalharia vive precisamente dessa tensão: a paciência quase secreta do atelier e o instante brutal em que tudo se acende diante das câmaras. Neste caso, acendeu em mais do que um rosto. E isso diz muito sobre a força atual da maison.


























