Aos 37 anos, Luísa Fezas Vital assume a direção da Athena Advisers em Portugal e olha para o imobiliário premium como património, decisão familiar e expressão de estilo de vida.
Uma casa pode começar num número, numa morada ou numa vista feita para cansar a memória do telemóvel. No imobiliário premium, a decisão ganha força quando o comprador imagina rotinas: a escola dos filhos, o restaurante onde se volta sem consultar críticas, a praia sem aparato, o bairro com vida própria. O país como hipótese de futuro.
Luísa Fezas Vital conhece bem esse momento em que o ativo ganha biografia. Aos 37 anos, assumiu a direção-geral da Athena Advisers em Portugal, consultora imobiliária internacional do segmento residencial premium e um ticket médio, em 2025, na ordem de 1 milhão de euros. Entrou em 2024 como Client Relations Manager, próxima da gestão jurídica das transações. Em menos de um ano, passou a liderar a operação nacional.
A nomeação surge numa fase de reorganização interna. David Moura-George, que dirigia a consultora desde 2017, passou a concentrar-se no imobiliário comercial, enquanto Luísa ficou responsável pela estratégia, coordenação e desenvolvimento do mercado português. A Athena quer dar mais peso a Portugal dentro do grupo, reforçar a autonomia local e criar uma estrutura menos dependente de Londres.
Os compradores chegam informados, comparam destinos, pedem números e querem segurança jurídica. Depois perguntam por escolas, bairros, restaurantes, acessos, hospitais, natureza, cultura e ritmo de vida. A casa surge no centro de uma equação ampla, onde património, família e estabilidade pesam tanto como a valorização futura
O direito também pode abrir portas
Antes da Athena, Luísa passou por sociedades de advogados, pela Consultan e pela Associação das Empresas Familiares, onde foi Secretária-Geral Adjunta de 2017 a 2022. O Direito continua a ser a sua estrutura de trabalho. “Deu-me estrutura mental, capacidade analítica e um conhecimento muito importante dos processos de transação e do enquadramento jurídico português”, explica.
Atuando num ecossistema de compradores internacionais, diferentes jurisdições, due diligence, prevenção do branqueamento de capitais e documentação extensa, essa base torna-se uma ferramenta prática. Luísa fala do direito sem o transformar numa parede de linguagem técnica. Interessa-lhe a capacidade de desbloquear. “Fechar um negócio exige muitas vezes criatividade jurídica”, diz. “Conseguir encontrar soluções viáveis, desbloquear processos, aproximar posições e evitar que a burocracia ou a complexidade legislativa inviabilizem operações que fazem sentido para todas as partes.”
Antes da assinatura, existe muitas vezes uma coreografia delicada de expectativas, receios, prazos, bancos, advogados, promotores e famílias. “A compra de uma casa envolve sempre uma componente emocional muito forte”, sublinha.
A passagem pela Associação das Empresas Familiares acrescentou-lhe outra leitura: a do legado. “Quando alguém investe num imóvel, sobretudo neste segmento, está muitas vezes a pensar no futuro, na família, na preservação de património e naquilo que quer deixar às próximas gerações. Não é uma compra impulsiva nem puramente financeira.”
Antes da casa, o destino
A Athena Advisers define-se como “destination maker”. Na prática, significa olhar para o imóvel dentro do destino onde existe. O trabalho começa antes da venda, na leitura do lugar, no posicionamento do projeto e na ligação emocional que se cria com quem compra. “Existe todo um trabalho de valorização dos destinos, de construção de narrativa e de criação de ligação emocional com o lugar”, diz Luísa.
Em Portugal, essa abordagem ganha terreno para lá dos centros urbanos mais evidentes. Lisboa, Estoril, Cascais e Porto continuam relevantes, mas a procura alargou-se a destinos costeiros e territórios associados a um ritmo de vida mais discreto: Comporta, Melides, Costa Vicentina, Ericeira, Madeira, Açores e Algarve.
“Portugal tem hoje um posicionamento muito raro: continua a oferecer autenticidade, qualidade de vida e uma relação próxima com a natureza, algo cada vez mais difícil de encontrar noutras geografias”, afirma. A tendência passa por destinos menos massificados, ligados ao bem-estar, à vida comunitária e a um estilo de vida equilibrado.
Luísa usa a expressão “barefoot luxury” para descrever parte desta procura: menor densidade, contacto com a natureza, sentido de lugar e uma elegância sem aparato. Um valor que depende tanto da arquitetura como da relação do projeto com a paisagem, com a comunidade e com o tempo.
O cliente premium continua atento ao retorno financeiro, mas a decisão inclui estabilidade, segurança jurídica, saúde, educação, mobilidade, privacidade, natureza e coerência com valores pessoais. Para Luísa, a perceção do país consolidou-se nos últimos anos. “O contexto geopolítico internacional acabou por reforçar ainda mais a atratividade de Portugal enquanto destino estável, seguro e previsível. Hoje, Portugal é visto como o principal safe haven europeu para as elites internacionais.”
Muitos clientes chegam sem conhecer verdadeiramente Lisboa, a Comporta, a Ericeira ou a Costa Vicentina. Antes de decidirem, precisam de perceber como se vive. Querem experimentar bairros, restaurantes, escolas, espaços culturais, natureza, acessos e rotinas. “Antes de comprarem uma casa, precisam primeiro de conhecer e compreender o nosso lifestyle”, resume. “Não vendemos apenas imóveis, acompanhamos pessoas num processo de mudança de vida.”
Menos pressão sobre o território
Ao assumir a direção-geral, Luísa definiu como prioridades consolidar a equipa, otimizar processos internos e reforçar o nível de serviço. A nomeação de Marta Salgado como diretora de vendas em Portugal faz parte da mesma estratégia.
Portugal beneficia do investimento, da reabilitação, da visibilidade internacional e da criação de valor, mas continua desconfortável com a palavra luxo quando ela se aproxima do património. “Talvez ainda falte discutir este tema com menos preconceito”, defende Luísa. “Um posicionamento mais exclusivo pode trazer um valor significativo ao país, económico, cultural e até ambiental, sem implicar massificação.”
Um projeto premium bem pensado pode reduzir pressão sobre o território, trabalhar com menor densidade, valorizar arquitetura, paisagem, cultura local e permanência. A diferença está na exigência do promotor, na inteligência do posicionamento e na capacidade de resistir à tentação de transformar todos os destinos em versões fotogénicas da mesma ideia.
“O segmento premium não significa necessariamente mais volume. Significa precisamente o contrário: menos pressão, maior qualidade, mais sustentabilidade e uma valorização mais inteligente dos destinos.”
A venda de casas continuará a envolver preço, localização, arquitetura e rentabilidade. Mas os destinos que resistirem melhor serão os que souberem acrescentar valor sem perder carácter. Portugal ainda tem essa margem. A arte estará em não a gastar depressa.









