Cláudia e Catarina Soares Pereira trabalham há mais de três décadas a partir da Casa do Passadiço. O atelier nasceu em Braga, cresceu em Portugal e assina hoje projetos em algumas das geografias mais exigentes do mundo.
Styling e Realização: Filipe Carriço
Fotografia: Pedro Ferreira assistido por Ana Viegas
Maquilhagem: Lucília Lara
Cabelos: João Gaspar
A Casa do Passadiço nasceu em Braga, em 1992, quando Catarina Rosas transformou uma casa senhorial do século XVIII num atelier e showroom de decoração de interiores. O gesto definiu desde logo uma forma de trabalhar: apresentar ambientes completos, onde cada divisão parecia pertencer a uma casa real, com alma própria e uma ideia de interiores que ia muito além da escolha de peças soltas. Trinta e três anos depois, essa continua a ser a base do projeto.
Cláudia e Catarina Soares Pereira juntaram-se à mãe ainda no início deste percurso e ajudaram a levar o atelier para uma dimensão que hoje já não cabe numa só morada. A Casa do Passadiço tem três showrooms em Portugal, mais de 40 projetos em curso e presença em cidades como Paris, Londres, Dubai, Nova Iorque, Milão, Macau e São Paulo. Assina todas as lojas Aquazzura, marca italiana de sapatos nascida em Florença e usada por nomes bem conhecidos do cinema e da moda, além de residências privadas, espaços comerciais e interiores de grande escala.
Neste momento, o atelier trabalha em residências no Restelo, num palácio na Lapa, em casas na Quinta do Lago, num chalet em Crans-Montana, em dois iates, numa casa em St Barth, num ClubHouse no Pinheirinho, na Comporta, em apartamentos no Porto e em Lisboa, casas em Cascais e numa propriedade particular no Douro. A lista dá a medida da escala, mas não explica tudo. O que torna o trabalho reconhecível é a forma como cada encomenda continua a ser tratada como um caso particular, com atenção ao contexto, ao cliente, ao uso e à vida que o espaço terá depois da obra terminada.
A dimensão atual da Casa do Passadiço vê-se na diversidade de tipologias, geografias e clientes. Ainda assim, Cláudia e Catarina falam do crescimento do atelier com a mesma precisão com que descrevem uma divisão, um material ou um acabamento. O percurso internacional não alterou a forma de trabalhar: proximidade, rigor nas escolhas e exigência constante em cada etapa.
Uma linguagem construída no tempo












A história da Casa do Passadiço tem origem familiar, mas ganhou corpo através de método, consistência e evolução. O atelier não ficou preso à imagem da casa onde começou. Transformou essa primeira matriz numa linguagem própria, capaz de atravessar casas privadas, boutiques internacionais, apartamentos urbanos, residências de férias, projetos comerciais e interiores de iates.
Cláudia e Catarina falam do legado da Casa do Passadiço com pragmatismo. “Herança não é um peso, deve ser uma alavanca.” A frase resume bem a forma como se movem: com respeito pelo passado, mas sem rigidez; com memória, mas sem filosofia de museu. A base existe, o gosto apurou-se, a escala mudou. O trabalho foi sendo atualizado obra a obra.
A estética da Casa do Passadiço é muitas vezes associada a um clássico reinterpretado, mas a definição começa a ficar curta. “Depende do projeto”, respondem. Muitas intervenções partem hoje de bases arquitetónicas bastante modernas, o que obriga a uma leitura diferente de cada espaço. A assinatura não está numa fórmula repetida, nem num conjunto de peças reconhecíveis. Está antes numa ideia de proporção, conforto, textura, cor e composição.
Nas casas privadas, a abordagem tende a ser mais discreta: paletas suaves, materiais escolhidos com cuidado, elegância intemporal e conforto como ponto de partida. “Não gostamos de criar casas que não possam ser vividas. Para nós é essencial o conforto.” A frase diz quase tudo. Uma casa pode ter arte, peças raras, tecidos exigentes, materiais nobres e uma arquitetura irrepreensível. Se não souber receber os seus habitantes, falhou.
Nos espaços comerciais, a linguagem muda. As lojas Aquazzura são o exemplo mais visível dessa liberdade: interiores mais ousados, maximalistas, com cores impactantes, padrões, brilho, artesanato e um sentido cenográfico pensado para criar ambientes vibrantes. Duas faces do mesmo atelier, duas formas de interpretar um lugar sem se repetir.
“Convivemos bem com ambientes minimalistas. E maximalistas também. Cada um tem o seu encanto.” A resposta tem graça porque não tenta converter ninguém. Não existe manifesto, nem estilo imposto. Existe algo mais difícil de fabricar: personalidade. E a consciência de que o interior certo não é o que obedece a uma tendência, mas o que encontra uma verdade para quem o vai viver.
O Norte no centro do mundo
Cláudia e Catarina trabalham juntas no essencial, embora com olhares distintos. Uma tem maior foco nos tecidos, nas texturas, na cor e na decoração. A outra acompanha de perto a dimensão arquitetónica, os materiais e os acabamentos. Essa complementaridade tornou-se uma das bases do atelier: competências que se cruzam, sensibilidades diferentes e uma forma de trabalhar assente no diálogo constante. “Felizmente, não somos tão parecidas como possa parecer. Daí complementarmo-nos tão bem.”
A relação de irmãs podia ter complicado a empresa. Neste caso, deu-lhe uma franqueza difícil de replicar. Dividem tarefas, discutem soluções e afinam decisões em conjunto. “Acabamos por concordar nos pontos essenciais e isso é a nossa força.” Crescer mantendo consistência exige aquilo que resumem em três palavras: “trabalho, resiliência e disciplina.”
Essa disciplina vê-se também na forma como os showrooms foram pensados. Braga continua a ser a raiz do projeto, o lugar onde tudo começou e onde a Casa do Passadiço mantém uma relação direta com a sua história. Lisboa chegou em 2019, na Avenida da Liberdade, num edifício histórico de 1900, e funciona como montra natural num dos eixos mais internacionais da capital. O Porto abriu em 2024, na Foz do Douro, num edifício tipicamente portuense, com fachada coberta por azulejos geométricos e vista para o mar.
Nenhum destes espaços funciona como uma loja convencional. Cada showroom é pensado como uma residência privada, com diferentes divisões, mobiliário, iluminação, objetos, peças decorativas e ambientes completos. O cliente entra num conjunto pensado como um todo. Percebe proporções, circulações, combinações, atmosfera. Pode escolher peças, claro, mas a proposta é maior do que a compra de objetos: é uma forma de entender a casa.
A partir de Braga, Cláudia e Catarina foram desenhando uma geografia própria. Lisboa trouxe maior visibilidade nacional e internacional, com o showroom da Avenida da Liberdade. O Porto reforçou a presença da Casa do Passadiço no Norte, agora também na Foz do Douro. Fora de Portugal, o atelier ganhou escala e abriu novas frentes de trabalho, sem alterar a prioridade que continua a orientar cada encomenda: criar interiores pensados caso a caso, atentos ao lugar, aos materiais e à forma como cada espaço será vivido.
Nesta edição da Fora de Série dedicada à excelência Made in Portugal, Cláudia e Catarina Soares Pereira representam uma forma de criação portuguesa capaz de dialogar com diferentes geografias, clientes e culturas. O trabalho da Casa do Passadiço nasce em Braga e construiu ao longo de 33 anos uma presença internacional assente no rigor de execução, na escolha dos materiais, no detalhe e numa relação próxima com o artesanato.
Essa dimensão é visível em Roma, no primeiro Aquazzura Bar, aberto no Hotel de Russie. O móvel de bar e o painel com motivos de limão foram feitos à medida e pintados à mão pelos artesãos da Viúva Lamego, integrando o saber-fazer português num projeto internacional desenhado para uma marca italiana. É um exemplo claro da forma como a Casa do Passadiço trabalha: cruzando referências, técnicas e contextos, sem perder a coerência do espaço.
Quando trabalham fora, Cláudia e Catarina dizem levar sobretudo “o nosso artesanato e savoir-faire”. Essa ligação manifesta-se na escolha de materiais, na colaboração com artesãos, no cuidado com a execução e na integração de cada elemento no conjunto. A presença portuguesa surge através do fazer: nas técnicas, nas mãos envolvidas e na capacidade de adaptar referências nacionais a projetos pensados para diferentes contextos.
Também por isso, a palavra luxo lhes interessa cada vez menos. “Pensamos que a palavra luxo está a perder peso e já está gasta. Preferimos dar primazia a conceitos como excelência, qualidade, raridade.” A distinção é importante. No trabalho da Casa do Passadiço, o luxo surge como resultado de tempo, competência, conforto e precisão. O que fica é a permanência.
A vontade de desenvolver peças próprias e trabalhar ainda mais com artesãos do Norte continua a fazer parte dos planos. “Já o fazemos há muito, mas gostaríamos de intensificar ainda mais essa vertente do nosso trabalho.” A frase aponta para uma expansão que não passa apenas por abrir novas geografias, mas por aprofundar aquilo que o atelier já faz: criar interiores com identidade, feitos por muitas mãos, muitos ofícios e muitas decisões invisíveis.
Falta sempre algo por conquistar, dizem, com o apetite tranquilo de quem continua a encontrar emoção no trabalho. Depois de tantas casas, tantos países e tantos metros quadrados desenhados, um projeto ainda precisa de as conquistar à partida. “Felizmente, temos projetos maravilhosos que nos comovem constantemente.” Talvez seja esse o ponto. A Casa do Passadiço cresceu, atravessou geografias, passou a trabalhar com clientes internacionais e entrou em algumas das casas e marcas mais exigentes do mundo, sem perder uma ideia central: uma casa só ganha verdade quando alguém consegue imaginá-la vivida.
Casa do Passadiço
Braga
Morada: Largo de S. João do Souto, Braga
Tel.: +351 253 619 988
Email: mail@casadopassadico.com
Lisboa
Morada: Av. da Liberdade, n.º 166,
Tel.: +351 215 846 973
email: lisboa@casadopassadico.com
Porto
Morada: Rua do Padrão, n.º 99, Porto
Tel.: +351 221 127 803
Email: porto@casadopassadico.com















