Reaberta no coração de Cascais, a Casa do Largo regressa maior e mais confiante. Viviane Rocha recupera um ícone local, duplica o espaço, acrescenta esplanada e devolve-lhe tempo, conforto e identidade.
A porta continua discreta. Sempre foi assim. Quem é de Cascais nunca precisou de letreiro luminoso para saber onde ficava a Casa do Largo. Bastava dizer “no Largo” e toda a gente entendia. Durante décadas, este foi um daqueles lugares que funcionam por reconhecimento mútuo. A Casa do Largo sempre foi ponto de encontro. Ali cruzavam-se gerações, conversas que começavam ao jantar e acabavam muito depois da sobremesa, decisões pequenas e histórias grandes. Havia bar, restaurante e um piso superior onde se jogava, falava, combinava. Um espaço com vida própria, ligeiramente fora do guião, como tantos sítios que marcaram Cascais antes de a vila aprender a representar-se a si mesma.
O fecho deixou um vazio silencioso. Não houve substituto direto. Porque casas destas não se replicam. Ficam suspensas na memória coletiva, à espera de alguém que perceba o peso do lugar antes de lhe mexer. Esse alguém foi Viviane Rocha.
Para quem acompanha a restauração em Lisboa, o nome dispensa apresentações. Vela Latina, Nikkei, Forest, Char.cutaria. Projetos com identidade, leitura do tempo e respeito pelo cliente. O que talvez nem todos saibam é que foi precisamente ali, no Largo da Assunção, que Viviane iniciou o seu percurso na restauração, há quase vinte anos. A Casa do Largo nunca saiu do radar.
O desafio era evidente: devolver vida a uma casa carregada de memória sem a transformar num cenário nostálgico. O caminho escolhido foi crescer, melhorar, mas manter o essencial. O espaço foi duplicado, respeitando a traça original. A sensação, ao entrar, é de casa habitada.
O interior revela um trabalho cuidado, desenvolvido em estreita colaboração com a designer Rita Valadão. Tons quentes, azuis profundos, verdes suaves, madeiras, cerâmicas e tecidos com textura. A inspiração vem da luz de Cascais e de uma leitura mediterrânica contemporânea, sem excesso decorativo. A lareira ocupa um lugar central, como ponto de gravidade emocional. Nos dias frios, percebe-se imediatamente porque este sempre foi um lugar de permanência.
Uma mezzanine cria um segundo plano mais reservado, ideal para jantares privados ou encontros prolongados. No exterior, a esplanada surge como um dos grandes trunfos desta nova fase: ampla, luminosa, feita para almoços demorados e finais de tarde que se estendem naturalmente para a noite. No total, a casa conta com 56 lugares no interior e 48 na esplanada, adaptando-se a diferentes ritmos sem perder intimidade.
Cozinha portuguesa, produto em primeiro plano
A cozinha segue a mesma lógica de discrição com produto irrepreensível. Portuguesa, com inspiração mediterrânica, assente na matéria-prima e na clareza dos sabores. A supervisão inicial foi do chef Benjamim Villaças, da Vela Latina, e a liderança está hoje nas mãos de Deyse Anjos, que assume aqui o seu primeiro grande desafio à frente de uma equipa própria.
Não há prato-manifesto porque a identidade constrói-se no conjunto. A carta percorre petiscos e clássicos com naturalidade: Queijo de Azeitão, tábua de presunto pata negra, ostras frescas, pica-pau do lombo, ameijôas à Bulhão Pato. Pratos que não precisam de contextualização.
Nos principais, o mar tem peso e segurança. Garoupa braseada sobre risotto de bacalhau, vieiras com massa fresca e molho de açafrão, pregado com carabineiro. Na carne, o bife à Marrare mantém-se como referência, acompanhado de batatas fritas como manda a casa, a par das plumas de porco preto com arroz de morcela. As sobremesas fecham sem dramatismo: mil-folhas, delícia de chocolate, torta de ananás com gelado de coco.
A carta de bebidas acompanha esse espírito. Cocktails clássicos bem executados, uma seleção sólida de gins, champagnes e vinhos a copo pensados para acompanhar a refeição, não para competir com ela. Tudo funciona em apoio da mesa.
A Casa do Largo entra agora também numa nova fase de programação, com jantares temáticos pensados como experiências completas, onde gastronomia, música e ambiente se cruzam sem rigidez. A primeira noite, inspirada em Espanha, marcou o tom. As próximas surgirão com tempo, anunciadas com discrição, como quem não precisa de fazer barulho para encher a sala.
Para Cascais, este regresso tem um peso que não se mede em metros quadrados nem em número de lugares. A Casa do Largo sempre foi um lugar de reconhecimento. Um ponto fixo numa vila em constante mutação. Um sítio onde se ia porque fazia parte da vida, não porque estava na moda. Hoje, o espaço cresceu, ganhou conforto, esplanada e outra escala, mas manteve a capacidade de receber sem pressa, de permitir que as conversas se alonguem, de aceitar que uma mesa pode durar uma tarde inteira ou uma noite sem plano definido. A Casa do Largo voltou a ocupar o seu lugar no Largo da Assunção. O resto acontece à mesa.
Morada: Largo da Assunção nº6, Cascais
Reservas: +351 218 384 141
Horário: terça a domingo, 12h00-16h00; 19h00-00h00































