A primeira boutique ibérica da Buccellati abriu na Avenida da Liberdade. Nicolas Luchsinger, CEO da maison, não hesita: é, simplesmente, “a melhor esquina da cidade”.
O número 215 da Avenida da Liberdade tem agora um novo inquilino com 105 anos de história. A Buccellati – a maison milanesa fundada em 1919 por Mario Buccellati, o joalheiro que o poeta Gabriele d’Annunzio descreveu como um “ourives dos mais excelentes” – inaugurou a sua primeira boutique na Península Ibérica numa das esquinas mais nítidas de Lisboa.
Nicolas Luchsinger, CEO da marca, não escolheu as palavras por acaso quando descreveu o local: “Adoro uma esquina. E esta é a melhor esquina da cidade.” Não é retórica. É, acima de tudo, uma declaração de princípios sobre a forma como a Buccellati se posiciona no mundo – com precisão, sem ruído, sabendo exatamente onde quer estar.
A boutique ocupa 136,2 metros quadrados distribuídos por dois pisos ligados por elevador. No piso inferior, três espelhos portugueses antigos foram integrados na decoração, criando um diálogo discreto, mas deliberado entre o património local e a estética intemporal da maison. Uma sala privada. Uma área dedicada à Silver Deco, onde uma seleção criteriosa de peças exclusivas dá a conhecer toda a extensão do universo Buccellati. Uma equipa dedicada. Tudo pensado para que a experiência de entrar neste espaço seja uma imersão, não uma transação.
A abertura resulta de uma parceria com a Boutique dos Relógios Plus e reforça a presença internacional da marca, que conta atualmente com 58 boutiques em todo o mundo. “Quando esta oportunidade surgiu, e dada também a relação que temos com o nosso parceiro em Lisboa, não hesitámos nem um minuto”, disse Luchsinger. “Sabíamos que era o momento certo.”
E o momento tem contexto: Lisboa mudou. Mais internacional, mais sofisticada, mais presente no radar do turismo de topo. “Lisboa é muito dinâmica hoje. Tem turistas, tem residentes internacionais, e tem essa proximidade com o Brasil e com Angola – ligações que nos parecem muito interessantes para a Buccellati”, acrescenta o CEO. Uma cidade que conjuga história sedimentada com energia contemporânea era, no fundo, o cenário óbvio para uma maison cujo ADN é precisamente esse cruzamento.
Uma continuidade com músculo
Em 2019 – o mesmo ano em que a maison celebrava o seu centenário – a Buccellati passou a integrar o Grupo Richemont a cem por cento. Uma coincidência de calendário que ninguém na empresa tratou como tal. “Não gosto da palavra transformação”, disse Luchsinger quando confrontado com a questão. “Não houve transformação nenhuma. O que o Richemont nos deu foram os meios para desenvolver a maison ainda mais: para investir em novos ateliers, numa nova sede em Milão, para ter apoio quando precisamos. Foi uma continuidade – mas uma continuidade reforçada.”
Maria Cristina Buccellati, diretora global de comunicação e membro da terceira geração da família fundadora, concorda sem reservas: “Compraram-nos porque éramos bem-sucedidos, e não quiseram mudar nada. Apenas crescer de forma orgânica, sem tensão, pouco a pouco.”
A pertença ao grupo tem vantagens concretas que vão além do capital. “Para questões de imobiliário, por exemplo, é uma vantagem enorme não estar sozinho”, explica Luchsinger. “Quando queremos abrir numa nova cidade, ter alguém do grupo que nos ajude a garantir uma boa localização – num mercado altamente competitivo – é um trunfo real.”
Mas há também o acesso a dados que nenhum player independente consegue replicar. “Temos a sorte de ser parte do Richemont, o que nos dá acesso aos números das nossas ‘primas’, como a Van Cleef & Arpels ou a Cartier, que trabalham com o mesmo parceiro em Lisboa. Quando vemos o que está a acontecer com elas neste mercado, percebemos que existe também uma oportunidade para nós.”
A Buccellati dentro do universo Richemont ocupa um lugar singular e, curiosamente, autoevidente. Luchsinger define-o com a clareza de quem já pensou muito na questão: “É um portfólio muito bom porque são três estilos completamente diferentes. A Cartier é romântica, influenciada pela natureza. A Van Cleef tem o seu próprio cosmos. E a Buccellati é outra coisa – é a história, é o Renascimento italiano. Completam-se.”
O que distingue radicalmente a Buccellati no panorama da alta joalharia não é apenas a estética, mas o princípio que a organiza. “Nós datamos a jóia pelo designer, não pelo período histórico”, diz Luchsinger. “Quando vemos uma peça dizemos que é um Mario. Datamo-la com o nome do criador. Não há mais nenhuma maison assim. E isso é muito italiano.”
Maria Cristina reforça o argumento com uma naturalidade que só vem de quem cresceu dentro desta ideia: “É onde se pode ver a diferença entre uma jóia desenhada por uma família e uma jóia desenhada por uma casa. A personalidade não desaparece com as gerações.”
A arte do reconhecimento sem logótipo
Não existe nenhum emblema ostensivo numa peça Buccellati. Não é descuido – é arquitetura de marca levada às suas consequências mais coerentes. “Somos reconhecíveis não por uma linha, mas por um estilo”, afirma Luchsinger. “Cada peça funciona em conjunto com as outras. É inconfundivelmente Buccellati. No tapete vermelho, vê-se e sabe-se logo. Isso não tem preço – literalmente, não se consegue atribuir um número a isso. Mas o valor é enorme.”
A discrição é intencional e vai muito além da ausência de logos. O cliente Buccellati não precisa de se afirmar. “São pessoas muito elegantes”, diz Maria Cristina Buccellati com a mesma economia de palavras que caracteriza as peças que representa. “Não precisam de se mostrar. São confortáveis com o que são, com o que têm.”
Esta filosofia de códigos silenciosos estende-se à forma como a maison cresce – ou, mais precisamente, à forma como recusa crescer depressa. Cinquenta e oito boutiques podia ser cinquenta e oito vezes o mesmo. Não é. “É uma surpresa. Em cada loja encontra algo diferente”, diz Luchsinger. “Isso faz os clientes voltarem. Alguém que esteve em Paris e vai a Lisboa pergunta-se: o que vou encontrar aqui? E pode encontrar algo que não existe em nenhum outro sítio.” A gestão desta singularidade plural é, como o próprio admite, “complicada” – mas é, simultaneamente, um dos principais ativos da marca. Cada boutique tem as suas peças de fundo de coleção, as suas melhores vendas. E depois tem o que é só seu.
O artesanato que sustenta tudo isto não é um argumento de marketing. É a estrutura sobre a qual tudo o resto assenta. As técnicas de gravação manual remontam às botteghe italianas da época do Renascimento – e a maison defende-as com uma seriedade que passa por construir infraestrutura humana para as perpetuar. “A Buccellati não pode crescer sem este artesanato específico, que é o que torna as nossas jóias tão especiais e tão bem-sucedidas”, diz Luchsinger. “É um desafio aumentar a produção mantendo absoluta fidelidade à qualidade que temos hoje.”
Buccellati Boutique Lisboa
Morada: Avenida da Liberdade, nº215 – Lisboa
Horário: Segunda a sábado: 10h00 – 19h30 Domingo e feriados: 11h00 – 18h00
Contactos: buccellati.com info@buccellati.com















