Com o Mundial de futebol 2026 a decorrer em pleno, a Havaianas lança “The Brazilian Flair” com Vini Jr. e captura o que de mais irresistível o Brasil sempre soube exportar.
O campo ainda estava quente quando Vinicius Junior recebeu a bola pela esquerda, cortou em velocidade e rematou no ângulo para empatar com Marrocos na estreia do Brasil no Mundial 2026. Um golo de génio individual, daqueles que raramente se vê. Mas o que aconteceu imediatamente depois, ainda antes de o árbitro apitar para o intervalo, foi o que só o Brasil parece saber fazer: a dança, o sorriso largo, os braços abertos de quem celebra o próprio ato de existir.
Enquanto Portugal tropeçava em Houston num empate desconcertante com a República Democrática do Congo, o Brasil arranjava forma de transformar a adversidade numa afirmação cultural. É esse o “molho”, como se diz no vernáculo brasileiro: não a vitória em si, mas a maneira de chegar lá, e de celebrar mesmo quando o resultado ficou aquém do esperado.
A Havaianas percebeu isso há muito tempo. A marca nascida em 1962, em São Paulo, lançou este mês uma campanha global que coloca exatamente essa ideia no centro: “The Brazilian Flair”, protagonizada por Vini Jr., é muito mais do que uma parceria entre uma marca icónica e um dos melhores futebolistas do planeta. É a tentativa de nomear algo que os brasileiros conhecem intuitivamente e que o mundo inteiro reconhece mas quase não consegue definir com precisão.
O flair que não se fabrica
Vinicius Junior foi escolhido como rosto desta campanha com uma lógica que vai além do óbvio. O avançado do Real Madrid, eleito melhor futebolista do mundo há menos de dois anos, é uma figura que incorpora de forma quase exemplar a contradição produtiva que define o Brasil contemporâneo: a alegria como resistência, a criatividade como arma, a expressão individual como afirmação coletiva. A campanha, desenvolvida a partir de São Paulo e com ativação global ao longo dos próximos meses, parte dessa premissa para construir uma narrativa muito mais ampla do que qualquer temporada de futebol.
“The Brazilian Flair” não se concentra no que acontece dentro de campo. A câmara prefere o que rodeia o jogo: as ruas pintadas de verde e amarelo, as superstições que se repetem de geração em geração, a música que sai das janelas abertas, as bandeiras improvisadas. E, claro, as balizas feitas com chinelos, imagem tão familiar para qualquer brasileiro que cresceu a jogar à bola numa rua ou numa praia. É precisamente esse detalhe que a Havaianas escolhe como símbolo central: o chinelo transformado em baliza é a metáfora perfeita da filosofia da marca, que durante décadas ensinou o mundo a olhar para um objeto simples e encontrar nele algo muito maior.
A campanha será desdobrada em conteúdos digitais, experiências imersivas em cidades-chave e projetos criativos que exploram diferentes expressões da brasilidade contemporânea. O projeto inclui ainda uma colaboração com a Pink Boto, marca sediada no Pará que funde moda, arte e identidade amazónica através de uma narrativa visual intensa. A escolha não é inocente: o Pará fica a mais de 2.500 quilómetros de São Paulo, e a Pink Boto representa um Brasil que não se reduz ao futebol e ao carnaval, mas que inclui floresta, cultura ribeirinha e uma estética visual que o mundo ainda está a descobrir. É uma afirmação deliberada de que a brasilidade é plural, e de que a Havaianas tem consciência disso.
De objeto a ícone, a longa marcha do chinelo
Em 1962, a Havaianas lançou o seu primeiro modelo com uma proposta direta: um calçado barato, duradouro, acessível a qualquer pessoa, inspirado na sandália japonesa zori. Durante décadas, o chinelo esteve associado a um uso essencialmente prático, sobretudo nas classes mais baixas. O momento de viragem aconteceu a meados dos anos 1990, quando a marca decidiu reposicionar-se radicalmente. Foram introduzidas novas cores, novos modelos, uma nova comunicação que celebrava o produto sem complexos. Figuras da cultura e do entretenimento brasileiros começaram a usá-los publicamente. O que era utilitário tornou-se desejável. O que era local tornou-se global.
Hoje, a Havaianas é o maior fabricante de sandálias do mundo e está presente em mais de cem países. Em Portugal, os chinelos coloridos tornaram-se uma presença constante no verão, das praias do Algarve às ruas de Lisboa, e a marca ocupa nas prateleiras de concept stores um lugar que há muito dispensou justificações. O produto em si não mudou radicalmente: a sola de borracha, a textura interior que evoca o grão do arroz, a leveza característica. O que mudou foi o enquadramento: de calçado popular a objeto de lifestyle, de símbolo de frugalidade a peça de desejo com identidade própria.
É esse repositório cultural que a campanha com Vini Jr. ativa com maior intensidade. A Havaianas não precisa de explicar o que são as suas sandálias: o produto conhece-se. O que a marca necessita de fazer, neste momento em que consolida o seu posicionamento como lifestyle brand global, é associar o seu ADN a um conjunto de valores que transcendam o produto físico. E poucos valores são hoje tão atrativos, tão difíceis de imitar e tão reconhecíveis à escala global quanto a brasilidade entendida mas como força cultural genuína.
O soft power que calça sandálias
O Brasil é o quinto maior país do mundo por superfície e o sétimo por população. É também um dos países com maior influência cultural no plano internacional, uma influência que nunca dependeu de um poder formal ou de uma hegemonia económica, mas de algo muito mais difícil de medir e de resistir. A música brasileira, da bossa nova ao funk carioca e ao baile funk, atravessou fronteiras. A arquitetura de Niemeyer mudou a forma como o mundo pensa o betão. A capoeira transformou-se numa arte marcial praticada nos quatro cantos do planeta. O futebol brasileiro, mesmo nos anos em que a seleção não ganha, continua a ser um argumento estético incontestável.
É dentro desta tradição que Vini Jr. se move, com toda a consciência disso. O jogador nasceu em São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, cresceu em circunstâncias difíceis e chegou ao Real Madrid com 18 anos, numa transferência que na altura gerou dúvidas sobre se seria demasiado jovem para o exigente futebol europeu. O que aconteceu desde então é amplamente conhecido: tornou-se um dos melhores futebolistas da sua geração, conquistou Ligas dos Campeões e Ligas espanholas, e arrecadou o prémio The Best FIFA Men’s Player. Mas mais importante do que os títulos foi a forma como os ganhou: com uma mistura de velocidade, intuição e expressividade que o distingue mesmo num panorama de talentos excecional.
Fora de campo, Vini Jr. tomou posições firmes contra o racismo no futebol europeu, tornando-se uma figura pública que vai muito além do desporto. A sua imagem combina autenticidade com glamour, convicção com alegria. É esse equilíbrio que a Havaianas pretende apropriar: a marca não quer apenas um futebolista famoso na sua campanha, quer um ponto de contacto com uma visão do Brasil que é simultaneamente popular e aspiracional, local e universal.
A escolha do momento também não é acidental. Com o Mundial 2026 a decorrer nos Estados Unidos, Canadá e México, o Brasil está no centro das atenções de um público que inclui, pela primeira vez de forma massiva, o mercado norte-americano. A popularização do futebol nos EUA, acelerada pela MLS e pela presença de figuras como Lionel Messi, criou uma janela de oportunidade para marcas com uma história cultural sólida. A Havaianas percebe isso e entra com a proposição que sabe fazer melhor: não vender um produto, mas vender um estado de espírito.
Enquanto o Grupo K do Mundial aguarda com inquietação o próximo jogo de Portugal e o Brasil procura o ritmo que o possa levar ao tão ambicionado hexacampeonato, as Havaianas calçam o momento com uma leveza que é, em si mesma, uma declaração. O flair não se aprende. Mas, de sandálias nos pés, talvez se consiga, durante uns instantes, senti-lo.






