Desde os tempos imemoriais que o homem tem a necessidade de se relacionar com o belo. Nas linhas que se seguem, mostramos como a arte contemporânea entra no dia a dia de várias sociedades de advogados e o respetivo impacto na cultura portuguesa.
Fotografia: Gonçalo F. Santos
Não são duas nem três as sociedades de advogados cujo espaço onde passam a grande parte do dia é mais do que um mero local de trabalho. A ligação entre colaboradores e obras de arte são afetivas, e um ambiente esteticamente estimulante aumenta a produtividade, comprovam vários estudos.
PLMJ
“Foi no número 224 da Avenida da Liberdade que em 1999 teve origem, de uma forma embrionária, o projeto de uma coleção de arte contemporânea que pudesse enriquecer o ambiente de trabalho na sociedade de advogados PLMJ”, conta Luís Sáragga Leal no documentário de Abílio Leitão que celebra os 20 anos da Fundação PLMJ, constituída em 2001.
Entretanto passaram 25 anos e apesar de não ter assistido ao seu nascimento, Eduardo Nogueira Pinto, presidente executivo da Fundação, conhece os cantos à casa e faz uma visita guiada no tempo e no espaço. Ali percebe-se como uma sociedade de advogados onde se tomam decisões do espectro jurídico pode ser um dinâmico espaço de Cultura.
Desde o princípio que a sociedade adotou quatro linhas programáticas: a criação de uma coleção antológica e multidisciplinar de arte contemporânea; um programa de exposições não só em Portugal, mas também nos países de expressão portuguesa; o apoio mecenático a várias iniciativas sociais e culturais e a publicação regular de livros e catálogos que fazem parte do acervo da coleção.
O facto de Sáragga Leal já ser colecionador terá ajudado. Criar a Fundação “é uma ideia visionária”, defende Eduardo Nogueira Pinto. “Promove artistas de língua portuguesa e valoriza jovens artistas pouco conhecidos”.
Em 2019, quando o escritório se mudou para a Fontes Pereira de Melo – Torre FPM 41 do atelier Barbas Lopes Arquitetos –, a fundação já tinha reunido um acervo considerável, com obras de artistas de renome como Julião Sarmento ou Rui Chafes. “São nomes como estes que atraem o interesse para o jovem artista.”
Na altura, ressalva Nogueira Pinto, a Fundação “dá um passo à frente e abre-se mais à cidade”. A começar pelos bairros das proximidades, como o de Arroios e das Avenidas Novas. A galeria – no décimo quarto andar – tem desde dezembro a exposição de fotografia: “Contraste: 1949 – 2024”, que pode ser visitada mediante marcação. “Criamos iniciativas com as juntas de freguesia e outras entidades vizinhas”. As escolas da periferia também são convidadas a conhecerem a coleção. “São pessoas que têm menos acesso a visitar um edifício e a ver uma coleção de arte.”
A coleção não está circunscrita ao edifício, pode ser vista, por exemplo, no Teatro de Variedades ou em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, através da exposição “as paisagens mudam de lugar – obras da coleção da Fundação PLMJ”.
“A ideia de democratização está presente em várias etapas. Começa pela ideia de ter uma coleção que não é só para ser usufruída pelos sócios ou pelos clientes, mas por todos que aqui trabalham.” Além disso as obras vão rodando. Há uma dinâmica interna das pessoas nos gabinetes usufruírem de uma obra da coleção escolhida por si.
“A pessoa afeiçoa-se e habitua-se a ver aquela obra diariamente. “É uma forma de se educar o gosto e criar relações afetivas com a obra de arte”. O ato de trabalhar rodeado de obras de arte torna-se um hábito. “E isso tem uma influência que está estudada”, admite Eduardo.
À dinâmica de apoiar artistas consagrados e emergentes junta-se o auditório do edifício da Fontes Pereira de Melo, que permite à Fundação ir além das artes plásticas e replicar-se em outras intervenções culturais. “Temos uma parceria com a Festa do Cinema Italiano, já fizemos teatro, concertos e também cedências do auditório para artistas ou outras entidades.” Recentemente foi lançado ali um documentário feito pelo artista Manuel Botelho.
Eduardo sublinha que depois de um primeiro momento que é a aquisição da obra e apoiar a carreira do artista, há muito caminho a fazer, que passa por “colaborações, trocas, exposições, falar sobre a arte, sobre as obras e sobre cultura. Organizamos talks, conferências, encontros e conversas”.
Por causa deste compromisso de publicação regular de catálogos e livros, “muitos dos artistas, o primeiro livro que tiveram, foi graças à fundação.”
Outra questão mais prática é o suporte jurídico pro bono que dão aos artistas. “Não são apenas artistas em início de carreira, também o fazemos com consagrados. Na relação artista/museu, artista/entidade coletiva, o criador é sempre mais desprotegido e, portanto, estando juridicamente apoiados, será menos um problema”. E, desta forma, a fundação funciona em rede, “o que é um valor acrescentado”.
A Fundação ajuda também a desenvolver a marca PLMJ. “Dá reputação e alarga o espectro de exposição da marca.” Em março de 2024 a Fundação recebeu o prémio “A” Colecionismo da ARCO (Madrid) na categoria “Coleção Corporativa Internacional 2024”. Para Eduardo Nogueira Pinto este prémio confirma que aquilo que gostam de fazer é reconhecido fora de portas. “A ARCO lida com outras fundações espanholas e da América Latina muito ricas e poderosas. Estamos a competir com coisas de outra dimensão. Ser reconhecido no meio disso é sintomático de que estamos a fazer as coisas bem”, conclui.
SRS LEGAL
Há outros escritórios que seguem esta tendência ou, na verdade, já a tinham adotado. É o caso da SRS Legal. Pedro Rebelo de Sousa, senior partner da sociedade, viaja connosco até 1998. Criada em 1992, a SRS Advogados nasceu da associação entre a Simmons&Simmons, a J&A Garrigues e a Pinheiro Neto. Era o primeiro escritório internacional em Portugal.
Na altura da Expo 98 “fomos desafiados pelo embaixador britânico a fazer uma exposição do acervo da Simmons, o que aconteceu no Museu da Eletricidade. Os sócios ingleses tinham uma coleção de arte criada no final dos anos 80. “Stuart Evans, o curador, era um homem interessantíssimo, e teve muita influência na coleção,” conta Rebelo de Sousa.
Stuart Evans, um advogado com uma aparência pouco convencional, quando entrou no escritório de advocacia inglês sugeriu aos sócios que poderiam decorar as paredes brancas das salas com obras de arte. “Foi curador e fundador da Tate Modern. Tinha um conhecimento profundo da arte contemporânea e de todos os movimentos. Ele criou em nós não só uma cultura de exposições, como uma filosofia de aquisições. Comprávamos uma obra, ela valorizava e depois era recolocada no mercado. Para criar fundos para comprar outras obras”.
Desde a exposição inaugural “que resolvemos ter uma política estruturada de participação e apoio a artistas portugueses. Desde então começaram a promover exposições não só em Portugal como, por exemplo, no escritório em Bruxelas.
Alguns sócios deram obras à sociedade em regime de comodato. “Tentamos ter obras icónicas na nossa coleção. Temos, por exemplo, um quadro de 1968 de Malangatana, no momento em que este desabrocha como pintor”. Nasce no escritório também uma forte participação em instituições culturais. A Brotéria ou o Festival internacional de Marvão são bons exemplos desta componente colaborativa. Nessa atividade cultural lançam as novas conferências do Casino, inspiradas em Eça de Queiroz, que abordam temas da atualidade.
Enquanto “a coleção está empacotada”, o futuro ganha forma, como anuncia o Instagram da SRS Legal. É uma forma airosa de dizer que neste momento a sede da sociedade está em processo de remodelação. Pedro Rebelo de Sousa chama-lhe a viagem artística que acompanha “a obra do arquiteto Miguel Saraiva, que está a pegar num imóvel que é um ícone do pós-25 de abril.” O antigo edifício da revista americana Reader’s Digest está a ser remodelado, o que permitirá criar, como diz o site,“novos espaços de colaboração, de partilha de informação e conhecimento, inspirando criatividade e excelência.”
Com a casa arrumada, a ideia é fazer uma exposição que dê a conhecer ao grande público a coleção privada da sociedade. “Quando nos separámos da Simmons em 2009, negociamos uma coleção de fotografias e de pinturas. Estamos a cogitar fazer uma exposição para que sejam apreciadas e discutidas pelo público português”, avança o associado.
ABREU ASSOCIADOS
Em 2018 a Abreu Advogados mudava-se para a zona ribeirinha de Lisboa e surgia a oportunidade de criar um projeto com foco nas artes plásticas – projeto este que nasce de uma parceria com a Associação Carpe Diem, cuja direção artística e curadoria é de Lourenço Egreja.
“Acreditamos que a cultura não é um acessório da vida profissional. É uma dimensão essencial da experiência humana, e um escritório de advogados que promove arte demonstra este compromisso com valores que vão muito além da rentabilidade e que incluem a criatividade, a sensibilidade estética e uma abertura ao mundo”, constata Sónia Gemas Donário, uma das coordenadoras do projeto cultural.
A ajuda direta acontece com o apoio ao Prémio Jovens Artistas. O vencedor tem direito a uma exposição individual na Abreu Advogados. Nos meses em que está em mostra o jovem artista, decorre em simultâneo uma exposição de um artista consagrado. O tema é subordinado à natureza. “O tema da natureza permite uma multiplicidade de interpretações. As perspetivas de cada artista são as mais diversas.”
Das naturezas mortas de Jorge Nesbitt, às paisagens fotográficas de Pedro Lobo, esta temática, ao contrário de ser limitadora, é bastante abrangente. No anfiteatro está uma obra de grande dimensão de Bordallo II: Dois mochos, símbolos da sapiência e do conhecimento.
“As obras funcionam como lugares de meditação, de introspeção, e contribuem para um ambiente mais sereno e propício à reflexão. Servem também de mote a um começo de conversa”, lembra a coordenadora. O projeto tem um lado interno porque os eventos que ali se realizam são, em primeiro lugar, dedicados aos colaboradores da casa, promovendo o contacto com a arte nos mais variados suportes.
A Abreu Advogados possui também um setor da arte, “onde prestamos assessoria jurídica especializada a artistas, indo ao encontro das necessidades de cada um. Prestamos assessoria especializada não apenas a artistas, mas também a associações culturais, a fundações, museus, colecionadores, galerias”. Outra mais-valia do projeto desta sociedade é o auditório, onde ao longo do ano se organizam variadas atividades culturais. A mais mediática será a participação no festival de fados Caixa Alfama.
MORAIS LEITÃO ADVOGADOS
“Ter obras de arte espalhadas pelo escritório sempre foi uma tradição nossa”, revela Nuno Galvão Teles, presidente do conselho de administração da Morais Leitão.
Na qualidade de patrono da coleção de Arte contemporânea da Fundação de Serralves, “o escritório esteve muito presente na configuração jurídica da fundação. Ficámos a trabalhar como advogados deles até aos dias de hoje. Na altura trocámos os serviços jurídicos pela possibilidade de ter aqui algumas obras da Fundação de Serralves”, refere o responsável mostrando as latas de Leite de Rui Aguiar, ou Festim de Nefertiti de Nikias Skapinakis.
“Mas este escritório não é propriamente uma galeria, os colaboradores têm um afeto especial pelas obras que aqui estão, e quando as substituem por outras ficam tristes. As pessoas criam relações afetivas com as obras de arte”, conclui.
Ocasionalmente compram arte, mas a coleção não tem expressão. “No meu escritório tenho um Vhils lindíssimo que adquiri era ele ainda um jovem artista. Mas são apostas particulares. Depois temos gozo em poder partilhá-las no escritório.”
Já os fundadores do escritório José Manuel Galvão Teles e o sócio João Soares da Silva possuíam duas importantes coleções de arte portuguesa. O pai de Nuno era amigo de Júlio Pomar e Vieira da Silva. “Tive a oportunidade de estar em Paris e ver a Vieira pintar. Era um miúdo e aquilo para mim foi um grande momento.” Não é, por isso, de admirar que a sociedade tenha uma relação bastante antiga com o museu Arpad Szenes-Vieira da Silva. “Sou membro do conselho fiscal e somos patronos da Fundação. Também lhes prestamos serviços jurídicos pro bono“.
Como vários sócios têm uma relação estreita com o mundo da arte, tudo isso “conflui para um espaço que tem essa componente estética.”
Com relações privilegiadas com outras fundações, como a EDP ou Gulbenkian, a Morais Leitão tem ligações de grande proximidade com este universo. “São relações que se foram estabelecendo e que gostamos de manter. É uma maneira também de contribuir para a vida artística portuguesa e para a promoção da arte em Portugal.”
Se as obras de arte são para consumo interno, à noite, quando Nuno sai do escritório, há gente parada no meio da rua a admirar a poesia visual que sai do ecrã gigante que está na receção. Esta exposição permanente de arte digital tem a curadoria da Collective of Two (Gonçalo Santana e Vasco Borges).
URÍA MENENDEZ
Desde o início que a sociedade Uría Menéndez mantém uma ligação muito particular com a arte e cultura. Quem o afirma é Ana Capel, diretora de sustentabilidade da firma: “temos consciência que, para além do respeito pelo direito, a defesa da cultura contribui para uma sociedade mais democrática.”
Em 2005 Rodrigo Uría – fundador e mecenas – criou a coleção de arte, com o objetivo de apoiar artistas portugueses, espanhóis e latino-americanos. “Uma coleção viva, presente em todas as sedes e onde se encontram obras centradas em duas temáticas: a geometria e o conhecimento”.
Neste escritório de advogados tudo tem um propósito. Se a geometria estuda a extensão e a relação entre pontos, o conhecimento destaca o papel que a transmissão do direito desempenha na advocacia. A abordagem da sociedade ibérica não parte de uma vontade de posicionamento na arte, mas sim de coerência com os valores da casa – “a ética, a decência e a estética”.
Matilde Horta e Costa, diretora de assuntos corporativos, explica “que a intervenção da Fundação Vieira de Almeida no eixo das artes e cultura vem sublinhar os valores de uma cultura de cidadania que se afirma nas aspirações de um coletivo inquieto, que quer contribuir para os desafios que enfrentamos enquanto sociedade.”
Uma referência em Portugal com projeção internacional, integra artistas como Rui Chafes, José Pedro Croft, Mónica Miranda ou Pedro Calapez. A coleção privilegia artistas portugueses e dos países onde a sociedade está presente. Associar criadores consagrados e artistas emergentes é uma das características principais desta fundação.
Um programa de exposições e iniciativas que promovem uma reflexão crítica sobre o mundo contemporâneo, onde a arte será um espaço de questionamento e também uma série de iniciativas com instituições culturais, fazem da Vieira de Almeida um agente ativo no ecossistema cultural que integra “a cultura no quotidiano da organização”.












