Chama-se Liberdade e é a artéria mais chique da capital. Será uma Lisboa em ponto pequeno onde cabe toda a multiculturalidade da cidade? A Associação da Avenida chama-lhe democrática e, de facto, ali há o luxo e a cultura popular de outras eras.
Fotografia: Gonçalo F. Santos
“É um lugar para todos”, sublinha Inês Ortigão, diretora executiva da Associação Avenida da Liberdade. Desde o nascimento do Passeio Público – em 1760 – que se trata de um território de identidade coletiva. É nesta artéria de luxo com tiques de boulevard francês que o povo sai à rua e se exprime de megafone na mão. Do ritual de descê-la até aos restauradores – para celebrar a Revolução dos Cravos –, a manifestações pelos direitos humanos, por melhores condições de vida, contra a gentrificação ou o racismo.
É com entusiasmo e emoção que os títulos do futebol – Benfica/Sporting – são festejados na rotunda do Marquês de Pombal, no extremo norte. Às várias manifestações culturais e cívicas, juntou-se recentemente o “Jazz in Avenida”, fruto de uma sinergia entre a Associação e o Hot Clube de Portugal, ou o “Tasting in Avenida”, com vários restaurantes envolvidos, que propõe menus temáticos, workshops e live cooking.
Do Passeio Público às marcas do século XXI
Este piscar de olho que o retalho de luxo faz à cultura e à história da cidade é muito bem defendido pela Associação. Sem fins lucrativos, o projeto, nascido em 2011, conta já com 145 associados que, em conjunto, trabalham diariamente para mostrar que as grandes marcas de luxo se misturam com a cultura local e que os artistas portugueses veem ali as suas obras representadas. No evento “Avenida Open Week”, que se realiza anualmente, é possível visitar os bastidores de várias lojas, restaurantes, hotéis e museus.
Uma das estratégias, explica Teresa Madeira, que faz a comunicação da Associação, “é desmistificar que o luxo é inacessível.” Seja lisboeta, seja turista, “pode não ter orçamento para comprar uma carteira ou um relógio de 2500 euros, mas poderá entrar e receber um atendimento de excelência”, diz.
Os eventos organizados pela Associação são gratuitos. Ao longo do ano é possível admirar os azulejos da Viúva Lamego na loja da Cartier ou observar de perto o mural “Grande Planisfério”, de José de Almada Negreiros, no antigo prédio do Diário de Notícias, hoje a Eleventy Milano, uma marca discreta. O painel do poeta futurista pode ser visto no edifício do antigo jornal diariamente, mas é durante a “Avenida Open Week” que os transeuntes são convidados a espreitarem o avesso do luxo.
Ao longo daqueles dias será uma surpresa feliz descer à cave do Rosa e Teixeira e aprender como se faz um fato por medida. Com a mestria de José Luís Ramos, alfaiate desde os 22 anos que fechou a sua casa de uma vida no bairro da Graça “por falta de costureiras.” São estas e outras histórias que apimentam o passeio e farão a diferença.
O bairro onde todos cabem
Deambulamos pelo chamado Luxury District, mas há espaço para o restaurante estrela Michelin – o Eleven – e para o restaurante tradicional. A Gina, por exemplo. Inês Ortigão vê a grande artéria e as transversais como um bairro e lembra que ainda há tascas nas perpendiculares.
A céu aberto acontece a Feira da Avenida. A mais central de todas as feiras de Lisboa junta mais de 130 bancas nos seus passeios, com velharias, antiguidades, artesanato e produtos tradicionais portugueses, alimentares e não só.
Eric Brodheim, com várias marcas ali representadas – como a Timberland, a Guess, a Burberry e a Tods –, considera a zona “uma montra privilegiada onde se cruza um cliente nacional exigente e um muito relevante turismo de qualidade”. Brodheim defende que a avenida, nos últimos anos, passou por uma transformação profunda. “Vimos uma maior qualificação da oferta, com mais hotelaria, restauração e retalho de luxo, mas também com relojoaria e joalharia de referência, o que a consolidou como destino obrigatório para quem visita a capital.”
Com cerca de um quilómetro de comprimento,este é um lugar de contrastes onde o luxo e o popular convivem mano a mano. Inaugurada em 2004, a marca francesa de malas de viagem Louis Vuitton foi a primeira a estacionar por estas bandas. Em Portugal, o Euro 2004 e Luís Filipe Scolari enchiam o país de esperança e também de turismo. Volvidos mais de 20 anos, o luxo tem-se multiplicado por ali como no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. A clássicos como a alfaiataria Rosa e Teixeira, a fazer fatos para homem por medida desde 1945, têm-se juntado casas como a Cartier, a Dior e, no último ano, as marcas Paul & Shark, Molteni e Patek Philippe.
Maria José Almeida, consultora pelo retalho na zona e expert em luxo, afirma que há uma lista de espera de marcas que querem entrar. “Só que têm os seus requisitos específicos para abrirem uma flagship. A loja terá que ser grande, o edifício histórico, com caché e as montras generosas”. A vinda destas marcas contribuiu de forma decisiva para a regeneração de muitos edifícios que estavam devolutos e restituiu a esta zona o glamour de outrora.
O grupo JNcQUOI fá-lo com mestria. Miguel Guedes de Sousa defende que o grupo trouxe para ali “um ecossistema integrado que une gastronomia, cultura, lifestyle, moda e serviço num único organismo vivo”. A prova disso são as ofertas de restauração e hotelaria nos dois lados da via. Ao Avenida segue-se o Asia e agora o novíssimo Fish.
“Criámos uma experiência de cidade dentro da cidade, que atrai clientes internacionais, gera economia, cria emprego e posiciona Lisboa num mapa global.” É sob esta premissa que nos sentamos para almoçar no JNcQUOI Fish, que mora no número 189, onde ficam 17 suites exclusivas do primeiro hotel do grupo Amorim Luxury.
No restaurante, a ligação ao mar está de tal forma impregnada nos detalhes que facilmente imaginamos que a alma portuguesa é feita de sal. O chef Filipe Carvalho realça a identidade nacional dos pratos. No cardápio só entra peixe nacional e a grande âncora é enaltecer a gastronomia lusa de forma sofisticada. Juntam-se algumas técnicas ancestrais e o resultado está à vista. Do bolinho de bacalhau com caviar ao carabineiro com arroz cremoso de limão. É tudo de comer e rezar. Reza a lenda que “Portugal nasceu do mar e que o Atlântico foi sempre mais do que um horizonte”; pois bem, no Fish, ao som de bossa nova, é possível mergulhar no mar a cada prato.
A Avenida que guarda memórias — e cria novas
O passeio obriga a viagens na máquina do tempo. Descobrimos que o hotel Tivoli abriu no fim do inverno de 1933. Na Cervejaria Liberdade, João Belém guarda segredos de outras vidas e é especialista, entre outras iguarias, em sopa de morangos, bife tártaro e crepe Suzette. Trabalhano mítico hotel Tivoli desde os 17 anos – há mais de 40 –,e privou com Beatriz Costa, que ali viveu e morreu. Ao flambê do crepe junta-se uma história sobre a atriz da zona saloia.
“Na primeira noite que pernoitou na capital, vinda do Milharado, Beatriz Costa dormiu ao relento num banco da avenida, e na última dormiu neste hotel de cinco estrelas”, conta Filipa Ferreira, gestora de comunicação do Hotel. Quanto ao crepe, sempre que João faz um, “parece que o aroma inebria os convivas, começam a surgir pedidos de crepes de várias mesas”.
A Cervejaria já foi Brasserie Flo e também Restaurante Zodíaco, e espelha bem a transmutação da rua. A tapeçaria de Jean Lurçat resiste, como resistem o centenário Teatro Tivoli BBVA, que fez 100 anos em 2024, ou o Cinema São Jorge, a criar cinéfilos desde 1950. Este é um dos edifícios modernistas que sobreviveram, assim como o antigo Hotel Vitória, cujo proprietário é o Partido Comunista Português.
Pedro Mendes Leal, proprietário do Hotel Valverde, espera-nos para um retrato. Além de CEO deste Boutique Hotel é também presidente da Associação Avenida da Liberdade e, como tal, tem ideias bastante estruturadas sobre o caminho feito e sobre o que falta fazer. “Tem sido feito um percurso muito positivo, e isso deve-se em grande parte ao trabalho conjunto entre os vários associados e entidades públicas”, observa.
Com o associativismo e a boa vizinhança têm conseguido “resolver questões concretas do dia a dia: desde a substituição mais célere de luzes a melhoria da limpeza, e até a um policiamento mais presente e regular, que traz uma maior sensação de segurança a quem vive, trabalha ou visita o centro da cidade.”
Mendes Leal gostaria, no entanto, que a área fosse mais pedonal, “com uma mobilidade cada vez mais sustentável.” Idealmente, “que continue a afirmar-se como um grande boulevard europeu: cosmopolita, segura, elegante e, ao mesmo tempo, profundamente ligada à cidade e às pessoas,” conclui.
Erich Brodheim vem ao encontro deste raciocínio e dispensa “o excesso de ruído visual e soluções de mobilidade pouco reguladas” que entram em confronto com quem caminha pela cidade. Inês Ortigão espera que em 2026 seja finalmente implementado o plano de requalificação desta área metropolitana. Desde o pavimento aos equipamentos urbanos e à organização da própria via pública.
A artéria mais vibrante da cidade fica ainda mais bonita e misteriosa ao entardecer vista do Rossio Gastro Bar, do Altis Avenida. O céu adquire tons de rosa, tão típicos de Lisboa. Bebe-se um cocktail “Coliseu”, que homenageia a sala de espetáculos alfacinha.
Brasileira de nascimento, Flavi Andrade veio de Castro Marim. “Precisava de mais poluição e de mais gente à minha volta”, conta. O segredo do sucesso num mundo masculino é “não perder a leveza e a feminilidade.”
É exatamente esta leveza que encontramos em Maria Ricardo Covões, que deixou a medicina para abraçar o mundo do espectáculo. Pertence à administração do coliseu dos Recreios desde 1988, mas só no último ano é que se tornou associada. Mas já fala na primeira pessoa do plural. Fala no conjunto.
“Nós (como associação) temos que tentar ter uma voz. Não só a voz do comércio, mas da cultura e até da arquitetura. Esta é a nossa artéria principal. E queremo-la bonita. Em cima temos o parque Eduardo VII, a estátua do Marquês de Pombal. Temos o rio Tejo como pano de fundo. Por isso temos que lutar para que os passeios voltem a ter canteiros com flores bonitas e que as fontes voltem a ser fontes”.
Maria lembra-se do tempo em que a Feira do Livro andava por ali com as suas banquinhas. “Adorava descê-la no tempo da feira”. Miguel Guedes de Sousa tem outras memórias do antigo passeio público. “Era elegante, mas quase vazia à noite”. Hoje é um destino, nela gosta de caminhar, observar as pessoas, ouvir línguas várias e sentir essa atmosfera cosmopolita e, simultaneamente, profundamente portuguesa. “Esta é provavelmente a avenida mais bonita da Europa para passear”, conclui.







