O Happiness Camp regressa ao Porto em setembro para discutir trabalho, saúde mental, liderança e tecnologia. António Pinto quer tirar o bem-estar da inspiração e colocá-lo na gestão.
A palavra felicidade ainda chega ao mundo empresarial com ar suspeito. Para alguns, parece demasiado leve. Para outros, demasiado elástica. Cabe em cartazes de recursos humanos, palestras de fim de ano, retiros com frases em néon e dinâmicas de grupo que ninguém pediu. António Pedro Pinto conhece bem essa caricatura. E é precisamente por isso que insiste em puxar a conversa para um lugar menos decorativo.
O CEO e fundador do Happiness Camp, que regressa ao Porto a 24 de setembro, na Alfândega, fala de felicidade no trabalho sem perfume de autoajuda. Fala de saúde mental, liderança, tecnologia, retenção de talento, risco, produtividade, burnout, autonomia, confiança e desenho organizacional. O vocabulário mudou. A urgência também.
A quarta edição do evento chega com ambição internacional reforçada, participação gratuita mediante inscrição e o Alto Patrocínio do Presidente da República. A organização prevê reunir mais de 15 mil profissionais de cinco continentes, vindos de mercados como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Brasil, Espanha, França, Alemanha, Emirados Árabes Unidos ou Nova Zelândia. O formato assume-se como festival corporativo, com dois palcos, masterclasses certificadas, área de bem-estar e um Conselho Executivo internacional que inclui nomes ligados à Salesforce, Nokia, Wellhub e VaynerX.
O tema deixou de morar na periferia das empresas. A Organização Mundial da Saúde estima que a depressão e a ansiedade custem à economia global mais de um bilião de dólares por ano em perda de produtividade. O burnout, reconhecido como fenómeno ocupacional, já não é uma palavra sussurrada à saída das reuniões. Entrou nos conselhos de administração, nas conversas sobre talento e nas contas difíceis de fazer quando uma equipa começa a falhar, não por falta de competência, mas por excesso de desgaste.
António Pedro Pinto, que ainda não chegou aos 30 anos, quer colocar o Porto no mapa global desta discussão. Sem importar tendências em bruto. Sem vender felicidade como verniz cultural. A sua pergunta é outra: que tipo de organizações queremos construir num tempo atravessado por inteligência artificial, ansiedade, pressão, velocidade e novas exigências de vida?
“O erro foi termos deixado esta conversa demasiado tempo no território da inspiração”
Quando diz que quer pôr o bem-estar no centro do trabalho, sente que ainda precisa de convencer as pessoas de que isto não é uma conversa simpática, mas uma conversa de gestão?
Sim, ainda sinto. Mas essa resistência está a desaparecer rapidamente, porque os números tornaram impossível continuar a tratar este tema como algo periférico. Quando a Organização Mundial da Saúde estima que a depressão e a ansiedade custam 12 mil milhões de dias de trabalho por ano à economia global, já não estamos a falar de simpatia. Estamos a falar de produtividade, risco, liderança, retenção e competitividade.
O erro foi termos deixado esta conversa demasiado tempo no território da inspiração. Para mim, bem-estar no centro do trabalho não significa ter empresas mais “queridas”. Significa desenhar organizações onde as pessoas conseguem ter energia, clareza, saúde, autonomia e capacidade de performar de forma sustentável. Isso é gestão. E diria até que é uma das grandes competências de liderança desta década.
A palavra felicidade é perigosa no contexto empresarial. Pode soar a promessa vaga, cartaz de recursos humanos ou linguagem de retiro espiritual com wi-fi. Como a resgata dessa caricatura?
Não tento resgatá-la tornando-a mais bonita. Tento resgatá-la tornando-a mais séria. A felicidade, no contexto do trabalho, só me interessa se for consequência de sistemas bem desenhados: boa liderança, confiança, justiça, autonomia, saúde mental, relações saudáveis, aprendizagem contínua e sentido. Quando a felicidade é usada como slogan, torna-se perigosa. Pode até esconder culturas tóxicas por trás de uma linguagem positiva. Mas quando a olhamos como resultado de condições estruturais, deixa de ser uma promessa vaga e passa a ser um indicador de qualidade organizacional. Por isso, o Happiness Camp está a evoluir nessa direção. Menos felicidade enquanto estética. Mais sustentabilidade humana, futuro do trabalho, tecnologia, saúde, liderança e cultura. A pergunta não é “como fazemos as pessoas sorrir mais?”. É “como construímos organizações onde as pessoas não têm de se destruir para ter sucesso?”.
Em que momento percebeu que o salário, por si só, já não resolvia a relação das pessoas com o trabalho?
Isso ficou muito evidente depois da pandemia, mas já vinha de trás. O salário continua a ser absolutamente fundamental. Não romantizo isso. Ninguém deve ser convidado a encontrar sentido enquanto está mal pago. Mas também percebemos que, a partir de certo ponto, o salário não compensa tudo: não compensa uma liderança ausente, uma cultura de medo, uma agenda impossível, uma vida sem tempo, uma sensação permanente de exaustão. O contrato psicológico com o trabalho mudou. As pessoas já não perguntam apenas “quanto vou ganhar?”. Perguntam: “que tipo de vida este trabalho me permite ter?”, “vou aprender?”, “vou ser respeitado?”, “vou ter saúde?”, “vou continuar relevante num mundo em transformação?”. O salário compra tempo. Mas não compra sentido, confiança, energia ou pertença. E são precisamente essas dimensões que hoje decidem se as pessoas ficam, saem ou simplesmente desligam emocionalmente.
“Se as pessoas saem de casa, tem de valer a pena”
O Lionesa Business Hub é quase uma pequena cidade, com mais de 7000 pessoas, 120 empresas e 50 nacionalidades. O que é que esse ecossistema lhe ensinou sobre o modo como trabalhamos hoje?
Ensinou-me que o trabalho já não acontece apenas dentro do escritório. Acontece nos corredores, nos cafés, nos momentos de pausa, nas relações improváveis entre pessoas de empresas diferentes, na forma como alguém se desloca, almoça, socializa, descansa e se sente parte de uma comunidade. A Lionesa é quase um laboratório vivo. Temos multinacionais, startups, equipas locais, talento internacional, gerações diferentes e culturas diferentes a conviver todos os dias. Isso mostra-nos que o futuro do trabalho não se resume ao debate entre remoto e presencial. A verdadeira pergunta é: que tipo de experiência humana estamos a criar quando as pessoas se juntam? O escritório do futuro não pode ser apenas um lugar onde existem secretárias. Tem de ser um ecossistema de pertença, aprendizagem, saúde, cultura e encontro. Se as pessoas saem de casa, tem de valer a pena.
O Happiness Camp nasceu em 2022 quase como uma experiência. O que mais o surpreendeu nessa primeira edição: a adesão do público ou a urgência das conversas?
A urgência das conversas. A adesão foi surpreendente, claro, mas o que mais me marcou foi perceber que as pessoas não estavam ali apenas por curiosidade. Estavam ali porque precisavam de linguagem, comunidade e respostas para algo que já sentiam há muito tempo. Existia uma sensação coletiva de que o modelo de trabalho estava a falhar em muitas dimensões: saúde mental, liderança, equilíbrio, sentido, pertença, confiança. E muitas pessoas, de áreas e níveis hierárquicos muito diferentes, estavam a tentar dizer a mesma coisa: “não podemos continuar a trabalhar como se nada tivesse mudado”. Foi aí que percebi que o Happiness Camp não era apenas um evento. Era uma plataforma para uma conversa que já existia, mas que ainda não tinha palco suficiente.
Muitas empresas já falam de bem-estar. Menos empresas mudam processos, horários, lideranças ou formas de medir desempenho. Onde está a fronteira entre discurso e transformação real?
A fronteira está no desconforto. Enquanto o bem-estar vive em campanhas, newsletters ou iniciativas pontuais, é relativamente fácil. A transformação começa quando a empresa tem coragem de mexer no que custa: carga de trabalho, qualidade da liderança, reuniões inúteis, horários, processos, incentivos, métricas de performance e comportamentos que são premiados mesmo quando destroem equipas.
Uso muito uma frase: se não está no orçamento, no calendário, nos KPI e na avaliação dos líderes, provavelmente ainda é comunicação, não transformação. Uma empresa que leva isto a sério não pergunta apenas “que benefícios podemos oferecer?”. Pergunta: “o que, na forma como trabalhamos, está a adoecer, bloquear ou desmotivar as pessoas?”. Essa pergunta é muito menos confortável. Mas é aí que começa a mudança real.
Produtividade e bem-estar continuam a ser tratados como forças opostas em muitas organizações. O que responde a quem ainda acha que cuidar das pessoas abranda o negócio?
Respondo que talvez essa pessoa esteja a confundir intensidade com eficácia. Trabalhar mais horas, com mais pressão e menos recuperação, pode criar uma ilusão temporária de produtividade. Mas, a médio prazo, costuma gerar erros, rotatividade, cinismo, absentismo, burnout e perda de criatividade. Cuidar das pessoas não abranda o negócio. O que abranda o negócio são equipas exaustas, líderes impreparados, culturas de medo e pessoas que já só estão presentes fisicamente. O futuro não pertence às empresas que extraem mais até ao limite. Pertence às que sabem renovar energia, talento e confiança continuamente.
“Portugal ainda confunde presença com produtividade”
Passa boa parte do tempo a viajar para ouvir especialistas e convencê-los a vir ao Porto. O que procura numa voz internacional antes de a trazer para o Happiness Camp?
Procuro pessoas que não venham apenas dar uma palestra bonita. Procuro vozes que tragam uma lente nova sobre o mundo. Pessoas que consigam ligar ciência, experiência, cultura, tecnologia e humanidade. Pessoas que não estejam apenas a repetir tendências, mas a ajudar-nos a interpretá-las. Também procuro coragem intelectual. O Happiness Camp não precisa de discursos genéricos sobre liderança ou bem-estar. Precisa de pessoas capazes de dizer algo que fica na cabeça de quem ouve, que desafia empresas, que cria desconforto produtivo e dá ferramentas reais para agir. E existe uma coisa muito importante: a voz tem de fazer sentido para o momento histórico que estamos a viver. Hoje, falar de trabalho é falar de IA, saúde mental, confiança, biometria, retenção, inclusão, longevidade, produtividade e desigualdade. Quero trazer ao Porto pessoas que consigam ligar estes pontos.
Passa boa parte do tempo a viajar para ouvir especialistas e convencê-los a vir ao Porto. O que procura numa voz internacional antes de a trazer para o Happiness Camp?
Procuro pessoas que não venham apenas dar uma palestra bonita. Procuro vozes que tragam uma lente nova sobre o mundo. Pessoas que consigam ligar ciência, experiência, cultura, tecnologia e humanidade. Pessoas que não estejam apenas a repetir tendências, mas a ajudar-nos a interpretá-las. Também procuro coragem intelectual. O Happiness Camp não precisa de discursos genéricos sobre liderança ou bem-estar. Precisa de pessoas capazes de dizer algo que fica na cabeça de quem ouve, que desafia empresas, que cria desconforto produtivo e dá ferramentas reais para agir. E existe uma coisa muito importante: a voz tem de fazer sentido para o momento histórico que estamos a viver. Hoje, falar de trabalho é falar de IA, saúde mental, confiança, biometria, retenção, inclusão, longevidade, produtividade e desigualdade. Quero trazer ao Porto pessoas que consigam ligar estes pontos.
O que é que Nova Iorque, Londres ou Singapura estão a discutir sobre trabalho que Portugal ainda evita discutir de frente?
Esses ecossistemas já estão a discutir com mais frontalidade a velocidade da transformação. Não estão apenas a perguntar se a inteligência artificial vai entrar no trabalho. Estão a perguntar quem a governa, quem ganha poder, que competências desaparecem, que funções são redesenhadas e como protegemos a dimensão humana num ambiente cada vez mais automatizado. Também existe uma discussão mais madura sobre saúde mental como risco organizacional, não apenas como tema de sensibilização. E há uma consciência maior de que a competição por talento já não é apenas salarial. É cultural, experiencial e até existencial. Portugal ainda evita algumas destas conversas porque continuamos, muitas vezes, presos a modelos de hierarquia, presencialismo e controlo. Mas isso está a mudar. E o Happiness Camp quer acelerar essa mudança: trazer para Portugal as conversas que já estão a moldar o futuro do trabalho global.
E o que pode Portugal trazer a esta conversa global sobre bem-estar, felicidade e futuro do trabalho?
Portugal pode trazer uma coisa muito poderosa: a ideia de que qualidade de vida não é um extra, é infraestrutura. Temos uma relação com tempo, proximidade, comunidade, luz, cidade, escala humana e hospitalidade que pode ser muito relevante para esta conversa global. Claro que não devemos romantizar Portugal. Temos desafios sérios em salários, produtividade, progressão, gestão e cultura de liderança. Mas precisamente por isso podemos ser um laboratório interessante: um país pequeno, aberto, seguro, internacional, com talento, com capacidade de atrair pessoas e empresas, mas ainda com muito espaço para redesenhar práticas de trabalho. Portugal pode trazer uma pergunta diferente ao mundo: e se o futuro do trabalho não for apenas mais rápido, automatizado e eficiente? E se for também mais humano, saudável, relacional e sustentável?Este ano, o programa junta nomes ligados a empresas como Salesforce e Nokia. O que lhe interessa nestes casos: o prestígio das marcas ou a capacidade de mostrarem práticas que outras empresas possam adaptar?
O prestígio ajuda a chamar atenção, naturalmente. Mas não é isso que me interessa mais. O que me interessa é perceber o que estas organizações estão a testar, a aprender e, sobretudo, a questionar. Marcas como Salesforce, Nokia ou outras grandes organizações internacionais têm uma vantagem: estão a lidar com problemas em escala. Têm equipas globais, transformação tecnológica, desafios de liderança, pressão por resultados, diversidade cultural e impacto humano muito significativo. Quando uma pessoa dessas empresas sobe ao palco, não queremos apenas ouvir uma história bonita. Queremos perceber que práticas podem ser adaptadas, que erros podem ser evitados e que perguntas outras empresas devem começar a fazer. O Happiness Camp não é uma montra de logótipos. É uma plataforma de transferência de conhecimento. O valor está menos no nome da empresa e mais na qualidade da aprendizagem que essa experiência pode gerar.Que pergunta gostava que todos os CEO fizessem às suas equipas, mas que quase nunca fazem?
Perguntaria: “O que, na forma como trabalhamos hoje, vos impede de fazer o vosso melhor trabalho?” Acho esta pergunta muito poderosa porque muda o foco. Em vez de perguntar apenas se as pessoas estão motivadas, satisfeitas ou felizes, obriga a olhar para o sistema. Pode revelar excesso de reuniões, falta de autonomia, má comunicação, medo de errar, processos lentos, liderança pouco clara ou prioridades contraditórias. Muitas vezes, as pessoas não precisam de mais uma iniciativa de engagement. Precisam que alguém remova obstáculos. Um bom CEO não deve apenas inspirar. Deve criar condições para que o talento consiga aparecer. E isso exige ouvir o que nem sempre é confortável ouvir.Aos quase 30 anos, está a tentar convencer líderes, empresas e especialistas globais de que o trabalho pode ser desenhado de outra maneira. A idade ajuda, atrapalha ou obriga a provar mais?
Faz as três coisas. Ajuda porque me permite olhar para o trabalho sem demasiada nostalgia. Não tenho uma relação romântica com modelos antigos de liderança, hierarquia ou sucesso. A minha geração entrou no mercado de trabalho já num contexto de crise climática, pandemia, IA, precariedade, ansiedade e transformação acelerada. Isso dá-nos uma leitura diferente.
Mas também obriga a provar mais. Há sempre quem confunda juventude com ingenuidade. Por isso, tento responder com trabalho, consistência, dados, curadoria e qualidade das pessoas que se juntam ao projeto.
No fundo, a idade dá-me urgência. Sinto que esta conversa não pode esperar mais vinte anos. O trabalho está a ser redesenhado agora. A pergunta é se vamos deixar que isso aconteça apenas por pressão tecnológica e financeira, ou se vamos introduzir também uma visão humana nessa transformação.
Se pudesse mudar uma coisa amanhã na cultura de trabalho portuguesa, sem pedir autorização a ninguém, o que mudava?
Acabava com a glorificação da disponibilidade permanente. Essa ideia de que estar sempre acessível, responder tarde, aguentar tudo e parecer ocupado é sinal de compromisso é profundamente prejudicial. Portugal ainda confunde muitas vezes presença com produtividade, esforço com impacto, cansaço com mérito. Eu mudaria isso. Gostava que passássemos a valorizar mais clareza, foco, autonomia, qualidade de decisão e resultados reais. Não defendo uma cultura de menor exigência. Pelo contrário. Defendo uma cultura onde a exigência é mais inteligente. Onde as pessoas não precisam de viver em modo sobrevivência para serem consideradas profissionais dedicados. O futuro do trabalho em Portugal não pode ser apenas trabalhar mais. Tem de ser trabalhar melhor.No limite, como saberemos que o Happiness Camp teve impacto? Pelo número de participantes, pelas empresas presentes ou pelas decisões concretas que nascerem depois de cada edição?
Os números são importantes porque mostram alcance. As empresas presentes são importantes porque mostram relevância. Mas o verdadeiro impacto mede-se depois: nas decisões que mudam, nas conversas que entram nos conselhos de administração, nos managers que passam a liderar de forma diferente, nas políticas que deixam de ser cosméticas e passam a ser estruturais. Para mim, o impacto acontece quando uma empresa revê a forma como mede desempenho, quando decide formar líderes em saúde mental, quando questiona a sua cultura de reuniões, quando desenha uma estratégia de IA mais humana, quando cria espaços reais de escuta ou quando percebe que bem-estar não é um benefício, mas uma condição de performance sustentável. Se alguém sair do Happiness Camp apenas inspirado, já é bom. Mas se sair com coragem para mudar uma decisão concreta, então o projeto cumpriu a sua função.Happiness Camp 2026
Data: 24 de setembro de 2026
Local: Alfândega do Porto
Formato: conferência/festival corporativo dedicado à sustentabilidade humana e ao futuro do trabalho
Participação: gratuita, mediante inscrição
Inscrições: happinesscamp.pt







