Comprou a primeira clínica aos 24 anos. Ficou doente aos 30. Reinventou-se aos 35. Ana Gonçalves é hoje a empresária que ensina a saúde a deixar de ter vergonha de crescer.
Quando o dono da clínica onde trabalhava lhe disse que ia vender ou fechar, Ana Gonçalves tinha 24 anos, formação em fisioterapia e uma pergunta que, desde então, definiria toda a sua trajetória: “Por que não?” Sem noção do que a esperava – impostos, salários, gestão de equipas, decisões solitárias ao fim de semana – comprou o espaço e entrou de cabeça num universo para o qual nenhuma cadeira do curso a havia preparado. O que veio a seguir foi exaustão, crescimento, doença, transformação e, finalmente, a construção de um dos projetos educativos mais relevantes do sector da saúde privada em Portugal.
Hoje, a Academia Negócios de Saúde (ANS) – que Ana fundou em plena pandemia e que já ajudou mais de dois mil profissionais a criar ou transformar os seus negócios – fechou 2025 com uma faturação superior a 1,1 milhões de euros. O crescimento previsto para 2026 situa-se entre 30 e 40 por cento. A empresa foi distinguida como Empresa Gazela 2025, reconhecimento atribuído a organizações com crescimento acelerado e contributo relevante para a economia regional. A Forbes escolheu-a para capa da edição especial Saúde. E no final desse mesmo ano, lançou o primeiro livro – “A Arte de Gerir um Negócio de Sucesso” – onde conta os erros que cometeu, sem os dourar.
O que torna Ana Gonçalves uma figura singular não é o percurso de sucesso. É a forma como fala dele – com uma franqueza que escasseia no universo dos coaches e formadores de negócio, onde a narrativa da vitória tende a apagar tudo o que a antecedeu.
O instinto antes do currículo
A trajetória de Ana Gonçalves não segue a lógica convencional de quem constrói uma carreira por etapas ordenadas. Começou como rececionista, tornou-se fisioterapeuta, depois proprietária, depois gestora, depois formadora, depois autora – não por plano, mas por uma espécie de instinto recorrente que ela própria descreve como “sempre gostei de fazer acontecer, gosto de me desafiar.”
O nome do seu podcast, “Olho prá coisa”, não é um slogan de marketing. É uma descrição fiel. A primeira clínica, a FisioTorres, em Torres Vedras, foi adquirida em circunstâncias que ela hoje conta com uma honestidade desarmante: “Com a minha imaturidade de 22 anos, pensei: por que não? Achava que era fácil.” Não era. O que se seguiu foram anos de aprendizagem acelerada – impostos, salários, margens, liderança de equipa – para os quais a formação académica em fisioterapia não oferecia qualquer bússola.
Em 2015 chegou uma segunda oportunidade: o Espaço Saúde Física, também em Torres Vedras, uma clínica com serviço de fisioterapia de longa data mas financeiramente destruída. Ana candidatou-se à exploração do espaço e voltou a ganhar — ‘mais uma vez, sem noção’, admite. Três anos depois, expandiu para outro espaço.
Foi nessa fase que diz ter começado verdadeiramente a sua carreira de empresária – não porque os negócios fossem maiores, mas porque a responsabilidade financeira se tornou inegável. “Quando somos empresários e donos das nossas empresas, prestamos contas a nós próprios. Mas é sempre diferente quando tenho de fazer uma apresentação de resultados.” A diferença, na prática, eram 16 horas de trabalho por dia, todos os dias da semana. E uma pergunta que ainda não sabia fazer: até quando?
O pesadelo por dentro do sonho
Em 2015 nasceu o primeiro filho. Em 2016, Ana Gonçalves ficou doente – um cancro que a obrigou a parar e, ao parar, a ver o que o ritmo não deixava ver. “O meu sonho de ter um negócio tornou-se um pesadelo e levou a que eu ficasse doente.”
Mas o que mudou depois não foi a ambição – foi o método de a exercer. Em vez de abrandar, Ana reorganizou-se. Fez cursos de gestão. Completou o Executive Master em Gestão de Serviços de Saúde no INDEG-ISCTE, de onde saiu com o Prémio de Melhor Aluno. Terminou depois o Mestrado em Gestão de Empresas no mesmo instituto, em 2020. E foi durante esse percurso académico que identificou uma lacuna que viria a tornar-se o núcleo de todo o projeto que construiu a seguir.
“Estava num contexto académico em que havia a professora a dizer como é que eu devia despedir alguém – sendo que ela nunca tinha despedido ninguém. A parte académica dá suporte, mas a maioria do tecido empresarial da saúde são profissionais que têm o seu negócio e não têm tempo para tirar mestrados nem pós-graduações. Querem um conteúdo simples, fácil e prático.” A consciência desta distância entre o que as universidades ensinam e o que os empresários da saúde precisam de saber em concreto foi o embrião da Academia.
O catalisador foi a pandemia. Com as clínicas encerradas e mais de cem colaboradores em risco, Ana criou um eBook sobre gestão de clínicas e lançou-o no Instagram. Nas primeiras 24 horas, mais de dois mil profissionais de saúde fizeram download. “Foi assim um boom. Criei uma ferramenta com a missão de ajudar que, de repente, escalou. Aliás, eu dizia sempre que ajudar era um hobby. Só ao fim de dois ou três anos da Academia é que pensei: bem, se calhar é um hobby que já é mais uma empresa.”
O tabu do lucro na saúde
Existe em Portugal – e Ana Gonçalves sabe isso melhor do que ninguém – um desconforto profundo quando se juntam as palavras saúde e rentabilidade na mesma frase. A formação académica na área da saúde está historicamente orientada para o serviço público, para o hospital, para o centro de saúde. A ideia de gerir uma clínica como um negócio evoca, em muitos profissionais, uma suspeita ética difusa – como se a preocupação com a margem fosse incompatível com o cuidado genuíno do doente.
É este preconceito que Ana Gonçalves tem dedicado os últimos anos a desmontar, com uma clareza que não pede desculpa: “Eu não acredito que deixamos de ser éticos por termos um negócio de saúde.” O argumento que sustenta esta posição é pragmático e coerente: um negócio financeiramente saudável tem mais capacidade de investir em equipamento, em talento e em experiência de atendimento. Um profissional sem literacia financeira não serve melhor os seus pacientes – serve-os com menos recursos e maior desgaste próprio.
A ANS organiza em Santarém, a 25 e 26 de Setembro, o IV Congresso de Gestão e Empreendedorismo em Saúde – o maior certame nacional dedicado à gestão no setor, com mais de 1.200 participantes esperados e 15 oradores em palco. É o cenário natural para o que Ana Gonçalves defende sem hesitação: “O Congresso desmistifica alguns anátemas que associam a gestão nesta área a uma menor atenção pelas necessidades do cliente. Pelo contrário, o desenvolvimento de um modelo de negócio que capacite os gestores a alcançar os seus objetivos terá como consequência oferecer as melhores soluções para quem precisa de cuidados de saúde”. Ética e rentabilidade não são opostos. São, na melhor versão de um negócio de saúde, aliados.
Quando entra numa clínica pela primeira vez, Ana Gonçalves diz conseguir identificar rapidamente os sinais de fragilidade financeira – e eles raramente têm que ver com falta de clientes. Têm que ver com falta de estrutura, de delegação, de leitura dos números. A sua convicção é que “o desafio não vai ser ter clientes, mas sim conhecer os clientes” – e que o futuro do setor favorece as pequenas clínicas especializadas, as chamadas boutiques, capazes de cobrar valores diferentes, construir maior rentabilidade com menos volume e oferecer um atendimento que os grandes grupos raramente conseguem replicar.
O que a ANS ensina, portanto, não é apenas como gerir uma clínica. É como não se tornar escravo dela. A ironia – que Ana reconhece com honestidade total – é que o risco de construir uma nova prisão existe também dentro da Academia. “Ensino os empresários a não se tornarem escravos dos próprios negócios. Mas as metas, a escala, a pressão pelo crescimento podem voltar a construir exatamente a prisão de que consegui sair.” A questão que ela não evita fazer a si própria é se a liberdade que promete aos outros é compatível com o crescimento que exige a si mesma. A resposta, por enquanto, está a ser construída.
25 e 26 de Setembro de 2026 | CNEMA, Santarém
Bilhetes: Standard a partir de 125€ | Premium a partir de 205€ | VIP a partir de 405€








