No universo do vinho, há números que se tornam lenda. O cinco é um deles. O IVDP celebrou o Port Wine Day com uma masterclass dedicada à mística dos anos terminados em 5 — colheitas que marcaram a história do Vinho do Porto e continuam a provar que o tempo é o seu melhor enólogo.
No Salão Nobre do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, o tempo foi o principal convidado. Na masterclass intitulada “O Mágico Número 5”, o IVDP reuniu jornalistas, escanções e enólogos para um exercício de memória líquida — uma viagem sensorial que atravessou noventa anos de colheitas excecionais, todas unidas por um detalhe aparentemente trivial, mas de grande simbolismo: terminarem em 5.
Os especialistas do Instituto, acompanhados por representantes de casas como Vallado, Taylor’s, Noval, Vesúvio, Dalva, Maynards, Ramos Pinto e Kopke, conduziram uma prova que revelou o poder que o tempo tem de lapidar o vinho do Porto. Da colheita de 1935 ao vintage de 2015, cada garrafa foi uma lição sobre longevidade e identidade duriense.
“São anos que frequentemente deram origem a Vintages de eleição e a Colheitas raras, hoje considerados verdadeiros marcos para colecionadores e apreciadores”, explicou Paulo Russell-Pinto, do IVDP.
Em 1935, num Douro ainda a recompor-se da Grande Depressão, nasceu o Kopke Colheita Branco 1935, uma raridade que, quase um século depois, “continua vibrante”. O Maynard’s Tawny 50 anos impressionou pela exuberância e profundidade, enquanto 1985 — considerado um dos grandes anos do século XX — revelou o esplendor dos Ramos Pinto Vintage e Dalva Colheita, vinhos de estrutura monumental.
O Noval Colheita 1995 e o Quinta do Vesúvio Vintage 1995 mostraram uma fase de elegância e harmonia, e o Taylor’s Vargellas 2005 evidenciou o potencial da parcela em São João da Pesqueira. Já o Vallado Adelaide Vintage 2015 encerrou a prova com frescura e intensidade, a expressão moderna de um Douro que se reinventa sem perder raízes.
“Provar colheitas que atravessam décadas é reconhecer a força da tradição e a capacidade única desta região em criar vinhos intemporais”, sublinhou Gilberto Igrejas, presidente do IVDP.
Mito ou mérito: o fascínio do número 5
No universo do vinho, poucos números geram tanta conversa como o 5. A crença de que ele encerra uma espécie de magia não é exclusiva do Douro — surge em várias culturas e regiões vinícolas, alimentando uma mistura de simbolismo, coincidência e história.
Em numerologia, o 5 representa harmonia, transformação e energia vital — atributos que, por curiosa coincidência, cabem bem na natureza do vinho: algo em movimento, em mutação constante. Na Madeira, por exemplo, a designação “5 Years Old” é uma categoria oficial de envelhecimento que marca o ponto de equilíbrio entre juventude e maturidade. Já em Champagne ou Bordeaux, há quem recorde as colheitas de 1955, 1985 ou 2015 como anos luminosos, em que o clima e a paciência humana se alinharam de forma rara.
No Douro, o padrão repete-se: 1935, 1985, 1995 e 2015 ficaram na história por condições climáticas ideais e vinhos de longevidade excecional. É difícil provar se o número tem influência real, mas é inegável o poder das coincidências — e da narrativa. Como observa um provérbio antigo, “todo o grande vinho precisa de um pouco de mistério”. O 5, neste caso, dá-lhe nome e identidade.
Entre o que o tempo leva e o que o tempo guarda
À entrada de um novo ciclo de vindimas, o Douro prepara-se para um ano de contrastes. As estimativas da ADVID apontam para uma quebra na produção, resultado de uma primavera chuvosa, da pressão do míldio e de episódios de escaldão. Ainda assim, as uvas que resistirem prometem qualidade notável, com bagos mais pequenos, boa sanidade e equilíbrio entre acidez e maturação — um perfil que favorece vinhos concentrados e de grande longevidade.
Segundo o Instituto da Vinha e do Vinho, a produção nacional deverá registar um ligeiro recuo, mas o Douro volta a distinguir-se pela resiliência. “Será um ano exigente, mas com potencial para criar vinhos de grande caráter, se o tempo se mantiver estável nas semanas finais de maturação”, referem técnicos da região. Um cenário que reforça o paradoxo que há muito define o Douro: quanto maiores os desafios, mais excecionais os vinhos que dele nascem.
Masterclass “O Mágico Número 5”
Organização: Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP, IP)
Local: Salão Nobre do IVDP, Porto
Vinhos em prova:
• Vallado Adelaide Vintage 2015
• Taylor’s Vargellas Vintage 2005
• Noval Colheita 1995
• Quinta do Vesúvio Vintage 1995
• Dalva Colheita 1985
• Ramos Pinto Vintage 1985
• Maynard’s Tawny 50 anos
• Kopke Colheita Branco 1935







