Em Alcântara, dezembro inaugura novos itinerários artísticos: o MAAT prepara a celebração da sua primeira década com nomes maiores da arte contemporânea, enquanto o MACAM revela duas exposições que inauguram um ciclo dedicado a coleções privadas e ao retrato do eu plural.
MAAT abre caminho para 2026
No MAAT, dezembro funciona como antecâmara de um ano particularmente simbólico. O museu celebra uma década de existência em 2026 – dez anos sustentados por prática curatorial, investigação, restauro e programação que o tornaram uma referência incontornável na vida cultural do país.
A programação agora anunciada para 2026 projeta essa maturidade num arco que vai da revisitação do património à expansão das linguagens contemporâneas, passando por questões críticas como a inteligência artificial.
O ponto de partida é a maior exposição alguma vez dedicada à Coleção de Arte da Fundação EDP, apresentada em duas partes – 11 de fevereiro e 29 de abril de 2026 – ocupando o MAAT Central com cerca de cem obras. Trata-se de um percurso não cronológico, pensado a partir das relações espaciais das galerias e das afinidades entre artistas de diferentes gerações.
A primeira parte reúne nomes como Gabriel Abrantes, Ana Jotta, Joana Vasconcelos ou José Pedro Croft; a segunda integra figuras como Jorge Molder, Rui Sanches, Fernanda Fragateiro e Helena Almeida.
Em março, duas exposições individuais aprofundam a relação do museu com a cena internacional:
– Christian Marclay ocupa três galerias com cerca de 15 obras que exploram a cultura urbana, do som aos ritmos do quotidiano, incluindo duas peças inéditas apresentadas pela primeira vez no MAAT.
– Anna Maria Maiolino, Leone de Ouro em Veneza 2024, apresenta Terra Poética – uma seleção de obras dos anos 1970–80 dialoga com esculturas em barro modeladas in situ, as maiores da sua carreira, concebidas especialmente para a Sala Oval.
A partir de abril, o percurso estende-se a novas abordagens ao arquivo e à memória. Margarida Correia apresenta Mais Alto, um projeto dedicado às enfermeiras paraquedistas portuguesas em África — um retrato raro de um grupo profissional cuja história permanece pouco estudada.
Em setembro, duas propostas unem diferentes linguagens:
– Life is the Game, experiência imersiva de Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) em realidade estendida, com direção tecnológica de Yolanda Correia e argumento de Eduardo Brito, conduz o visitante por um ritual entre morte e renascimento.
– Pedro Cabrita Reis regressa com uma instalação de grande escala na Galeria Oval, antecedida por um conjunto extenso de obras de pequeno formato que sublinham o carácter plural da sua prática.
Finalmente, outubro inaugura Energias da IA, exposição que analisa a inteligência artificial na dupla perspetiva da sua dependência de recursos e da sua capacidade de moldar sociedade, imaginação e comportamento. Com obras de Hito Steyerl, Trevor Paglen, Kate Crawford & Vladan Joler, Grégory Chatonsky, Fabien Giraud, entre outros, este será um dos momentos mais marcantes do próximo ano.
O MAAT dá assim arranque, ainda em dezembro, a um ciclo que se cumpre como promessa: olhar para o futuro com a densidade de quem conhece o caminho percorrido.
No MACAM, a arte fala em voz baixa - e múltipla
A poucos minutos de distância, em Alcântara, o MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, instalado no Palácio Condes da Ribeira Grande – inaugurou no final de novembro duas exposições temporárias que aprofundam a sua vocação: ser uma casa de coleções privadas, um lugar onde o diálogo entre acervos, artistas e público se torna motor de reflexão contemporânea.
Entre a Palavra e o Silêncio – Obras da Coleção José Carlos Santana Pinto
Com curadoria de Adelaide Ginga, esta mostra marca o início de um ciclo em que o MACAM convida colecionadores privados a apresentar o seu acervo. A coleção de José Carlos Santana Pinto, construída ao longo de mais de 40 anos e marcada por rigor conceptual e economia formal, apresenta obras onde palavra, gesto e pensamento crítico se entramam. O conjunto exposto reúne artistas portugueses e internacionais como On Kawara, Dora Garcia, Alfredo Jaar, Pedro Cabrita Reis, Carla Filipe ou João Onofre, entre outros.
A exposição ilumina uma dimensão que raramente se vê: o colecionador como leitor e intérprete, alguém que constrói narrativas visuais que se revelam agora ao público.
O eu como múltiplo – Coleção MACAM
Na Galeria 4, a curadora Carolina Quintela reúne obras que interrogam as múltiplas identidades do sujeito contemporâneo, da metamorfose quotidiana aos territórios onde corpo, memória e imagem se diluem.
Entre os artistas representados estão Ana Vieira, Helena Almeida, Horácio Frutuoso, John Baldessari, José Pedro Croft, Vik Muniz, Júlia Ventura ou Yu Nishimura.
A exposição constrói um percurso subtil, onde a figuração se encontra com o imaginário e onde o eu surge como espaço em permanente transformação — um eco discreto, mas poderoso, dos grandes temas que marcam hoje o debate sobre identidade.
Com estas duas mostras, o MACAM reafirma-se como um lugar de descoberta: um museu que habita simultaneamente o passado — o palácio histórico em Alcântara — e o presente, onde coleções privadas e obras site-specific convivem com uma programação que se estende à hotelaria, à performance e à música ao vivo.
Dezembro como mapa
Entre o MAAT e o MACAM, Alcântara propõe em dezembro um roteiro que cruza infraestruturas culturais distintas, mas unidas por um mesmo impulso: pensar o contemporâneo sem simplificar as suas contradições. Um inverno que se vive em salas amplas, atravessadas por esculturas monumentais, arquivos revisitados, identidades em trânsito e experiências tecnológicas que testam o futuro.
Se a arte portuguesa vive hoje um momento de grande vitalidade, estas duas instituições mostram como esse impulso se manifesta: em coleções que ganham nova leitura, em grandes nomes internacionais apresentados com ambição, em narrativas revistas com a distância que o tempo permite – e numa cidade que continua a reinventar a sua cartografia cultural.


















