Oitenta anos, mais de mil filmes, e uma curva que o tempo nunca conseguiu torcer. A Vespa continua a ser o veículo mais cinematográfico que alguma vez saiu de uma fábrica italiana.
Pontedera, 23 de abril de 1946. Um engenheiro chamado Corradino D’Ascanio olha para o protótipo que acabou de construir e diz que parece uma vespa. O nome cola. O mundo nunca mais foi o mesmo a duas rodas. Oitenta anos depois, a Vespa já não se limita a ser um meio de transporte – é uma personagem. Uma com currículo invejável: mais de mil filmes, dezenas de colaborações com artistas e estilistas de referência, e uma silhueta tão reconhecível que dispensou relações públicas. O cinema fez o resto.
A fábrica da Piaggio, em Pontedera, estava a reconstruir-se de um país em cacos depois da II Guerra Mundial quando decidiu que Itália precisava de voltar a mover-se. A solução foi democrática: um veículo acessível, fácil de conduzir, que não exigisse força física nem conhecimento mecânico. Que qualquer pessoa pudesse pegar, sentar, e partir – incluindo mulheres, numa época em que a mobilidade feminina era ainda uma concessão e não um direito. Aquela leveza era uma declaração política sem precisar de manifesto.
A Vespa que conquistou Hollywood antes de chegar a Roma
Em 1953, William Wyler filmou “Roman Holiday” e, sem o saber, criou o anúncio mais eficaz da história da Vespa – sem pagar um cêntimo à Piaggio. Audrey Hepburn, com o seu sorriso de princesa foragida, e Gregory Peck, com o charme do repórter que sabe mais do que diz, atravessaram Roma numa Vespa verde-metálico que roubou todas as cenas. A Forbes escreveria anos mais tarde que “o Óscar de 1954 para a esplêndida Audrey Hepburn deveria ter ido para a outra estrela feminina do filme”. Era da scooter que falava.
Não foi um acidente. A Vespa já tinha uma qualidade cinematográfica antes de qualquer câmara a captar: aquelas linhas arredondadas, aquela leveza aparente, aquela capacidade de sugerir movimento mesmo parada. É um objeto com narrativa intrínseca. Quando aparece num fotograma, o espectador sabe que alguém vai partir para algum lugar com alguma urgência – talvez sem destino certo, que é sempre o destino mais interessante.
Federico Fellini entendeu isso antes de toda a gente. “La Dolce Vita” usou a Vespa como pano de fundo da Via Veneto, o grande palco da Itália próspera e desorientada dos anos cinquenta – aquele país que tinha reconstruído o corpo mas ainda andava à procura da alma. As Vespas ziguezagueavam pelos fotogramas de Fellini como se fizessem parte do guarda-roupa da cidade, tão naturais como as palmeiras e os repórteres fotográficos. Mastroianni conduzia-as com a elegância de quem não pensa no que faz porque sempre soube fazê-lo.
Depois vieram décadas a confirmar a tese: a Vespa é universal, mas nunca genérica. Em “The Talented Mr. Ripley” (1999), Anthony Minghella usou-a para retratar a Itália de Jude Law – a Itália do verão sem fim, da Amalfi coast em luz de tarde, da vida que Tom Ripley quer roubar com tanto desespero. Matt Damon e Jude Law montados numa Vespa são a síntese perfeita de um thriller europeu: estilo à superfície, abismo por baixo.
Mais tarde, Angelina Jolie arrancou com uma em “Lara Croft: Tomb Raider”, fazendo o que poucas atrizes conseguem – tirar a Vespa do universo da dolce vita e metê-la numa cena de ação sem que a máquina perdesse um grama de elegância. Até Owen Wilson, nos becos de Paris à meia-noite, parecia mais parisiense com uma Vespa por perto.
O cinema percebeu aquilo que os seus condutores sempre souberam: quem anda de Vespa não está apenas a ir de A para B. Está a fazer uma declaração de estilo.
Quando os artistas pediram a palavra
Seria fácil a Vespa ter-se contentado com o cinema. Mas a Piaggio percebeu cedo que havia outra linguagem disponível – a da arte, da moda, do design de autor – e que a sua máquina era suficientemente icónica para sobreviver a qualquer reinterpretação sem perder a identidade.
Em 1962, Salvador Dalí – um homem que não fazia nada por metade – criou uma Vespa e deu-lhe o nome da sua mulher. Gala. Como se a scooter fosse um retrato, uma dedicatória em metal lacado. A lógica surrealista fazia todo o sentido: a Vespa já era um objeto de desejo antes de a Pop Art ter sequer nomeado o conceito.
Décadas depois, Giorgio Armani reinterpretou a Vespa 946 com a sua gramática de cores e sofisticação contida – o mesmo espírito, outro vocabulário. O americano Sean Wotherspoon imaginou-a tão colorida quanto a street art que o inspira. Christian Dior, sob a direção criativa de Maria Grazia Chiuri, produziu uma das Vespa 946 mais elegantes alguma vez vistas – com o detalhe de quem veste uma peça de alta-costura e a discrição de quem sabe que o luxo está nos detalhes.
Em 2022, Justin Bieber – que tem outras virtudes além do bom gosto em motas mas desta vez acertou – assinou uma Vespa toda branca que se tornou ícone no dia em que foi apresentada. Em 2025, dois gigantes da arte contemporânea, Urs Fischer e Frank Gehry, criaram duas Vespa Primavera únicas, feitas à mão, para apoiar os Special Olympics. Dois objetos de arte que também andam. Ou dois veículos que também são arte. Dependendo de como se prefere ver.
Que outro produto – com ou sem rodas – pode apresentar uma lista de colaboradores assim? O que une Dalí a Bieber, Armani a Gehry, Dior a Wotherspoon? A Vespa. Que, apesar de interpretada por cada um à sua maneira, permanece sempre reconhecível, sempre ela mesma. É a definição operacional de identidade forte: aquela que sobrevive ao encontro com o génio alheio.
Oitenta anos, uma cor e uma festa em Roma
Para celebrar oito décadas com a seriedade que o tema merece – e a leveza que a marca exige – a Piaggio apresentou dois novos modelos: a Vespa Primavera 80TH e a GTS 80TH. O elemento central é uma cor recuperada dos arquivos históricos: o verde-pastel das primeiras Vespas de 1946, aquele tom específico que aparecia nas scooters que percorreram a Itália reconstruída do pós-guerra. Não é nostalgia, é arqueologia cromática ao serviço de um argumento: a identidade não se inventa, cultiva-se.
O verde-pastel não se fica pelo guarda-lamas. Espalha-se pelos perfis do escudo, pelo manípulo do passageiro, pelos espelhos retrovisores, pelos blocos de comando e pela suspensão dianteira, numa combinação de acabamentos brilhantes e mate que dá ao modelo um caráter próprio e reconhecível. Os aros evocam as geometrias fechadas dos modelos históricos, inspirados na Vespa 98 de 1946, com a inscrição “Est. 1946” em acabamento diamantado. A placa comemorativa “80th” e o emblema “80 years of Vespa Est. 1946” completam o registo – discretos o suficiente para não parecerem efeméride, presentes o suficiente para não deixarem esquecer.
A acompanhar os veículos, uma coleção de vestuário e acessórios – o “80TH ANNIVERSARY” drop – onde o número 80 se transforma em elemento gráfico inscrito num hexágono que evoca o universo da engenharia de origem. Varsity jackets, field jackets em gabardine de algodão, sweatshirts, polos de corte funcional, e acessórios do tote bag ao capacete ABS, compõem um guarda-roupa coerente com a filosofia da marca: urbano, contemporâneo, sem excessos.
A coleção e os novos modelos já estão nas lojas desde 23 de abril – dia de aniversário, com a precisão simbólica que o momento merecia. A grande festa, porém, está marcada para Roma entre 25 e 28 de junho, numa celebração que a Piaggio descreve como a maior da história da marca. Difícil imaginar cenário mais adequado: a cidade que Audrey Hepburn percorreu numa Vespa verde-metálico em 1953, a cidade da dolce vita e do travertino, vai receber a Vespa para o aniversário mais importante da sua vida. Ainda bem que o convite foi aceite.
Oitenta anos é muito tempo para um ser humano. Para uma Vespa, é apenas o intervalo entre o próximo e o próximo. A máquina não envelhece – acumula significados. E toda a gente sabe que as coisas com significado nunca ficam velhas. Só ficam mais interessantes.
Vespa Primavera 80TH 125
Motor monocilíndrico 4 tempos, 124 cc, 11 CV. Travão dianteiro a disco com ABS, transmissão CVT automática. Peso: cerca de 130 kg. Altura do selim: 785 mm. Depósito: 8 litros. Euro 5+. Preço: 5.750 euros (IVA incluído)
Vespa GTS 80TH 310
Motor monocilíndrico 4 tempos, 310 cc, 25 CV – o mais potente da gama Vespa. Travões a disco nos dois eixos com ABS, transmissão CVT automática. Peso: 157 kg. Altura do selim: 790 mm. Depósito: 8,5 litros. Euro 5+. Equipamento de série inclui sistema keyless, ecrã LCD a cores e conectividade Vespa MIA. Preço: 7.950 euros (IVA incluído)
Disponíveis em showrooms selecionados e em vespa.com
















